Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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quinta-feira, agosto 17, 2017

Um bosque de árvores artificiais


Cheguei a casa há pouco tempo e não é seguramente às duas da manhã que vai aparecer-me inspiração ou esperteza para falar de coisas relevantes. Se quando estou fresca e acordada já é o que é, fará estafada e cheia de sono.

Por isso, vou limitar-me a ficar praticamente de boca fechada, partilhando apenas o vídeo que mostra as árvores feitas por homens, com jardins verticais, pontes entre elas e sei lá que mais -- todo um conceito em que vale a pena pensar.

Enquanto jantava, sem saber que teria que sair a seguir, estava a ver um interessante documentário sobre a razia que tem vindo a acontecer com os polinizadores. Entretidos que andamos com tretas nem nos damos conta de insignificâncias que, se descuradas, podem virar o mundo do avesso -- e o progressivo desparecimento de polinizadores é uma delas. Mostravam abelhas a morrer à mão cheia. Se não viram e puderem pôr a box a andar para trás, vejam o programa da 2, Vamos à Descoberta, pelas 21 horas. Aliás, se puderem, vejam sempre este programa.

O mundo deve ser uma coisa maravilhosa, cheia de mistérios e magias, maravilhosos milagres, encantamentos, diversidades. Temos que o preservar, reinventar, procurar acarinhá-lo, procurar agradar-lhe.

E, a esta hora, é o que me ocorre dizer.

In the center of Singapore, a manmade horticultural haven blooms. Supertree Grove is a man-made forest meant to enhance greenery and flora in the bustling city. The grove consists of 18 “trees” acting as vertical gardens, with trunks covered with over 200 varieties of orchids, ferns and climbing plants. Each tree reaches 80-160 feet high, and is connected by walkways that allow visitors to view the city from the treetops.

Tour This Stunning Grove of Man-Made Trees



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 Sobre o muito que há para dizer, tanto que não cabe na minha indisponibilidade, queiram, por favor, continuar a descer.

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Assuntos a mais e disponibilidade a menos


Não sei bem o que dizer. Não é falta de assunto, é o contrário. Montes de temas, desde o Passos Coelho no Pontal, a dizer palermices em catadupa, a Ágata na lista do CDS a mostrar às escâncaras a cabeça oca que é a Cristas e, por outro lado, os resultados do crescimento, da descida do desemprego e do aumento dos níveis de confiança. Duas soluções em confronto, uma perdedora, desgraçada, humilhante e indignificante e outra que transporta esperança, inclusiva, que mostra bons resultados.


Depois há o tema dos incendiários que parece pulularem por aí, pirómanos que não sei se não se sentem estimulados pelas over doses televisivas. 

A acrescer à desgraça das florestas a arder, mais a tragédia de uma árvore a vir desabalada para cima dos crentes e agora, que o mal aconteceu, ninguém a querer ser dono do terreno onde estava a árvore.

Lá por fora, é o anormal do Trump que, de cada vez que é deixado desencabrestado, o que é praticamente sempre, só faz porcaria, mas porcaria da grossa. Não sei dizer se ele é racista, xenófobo, estúpido, parvo, cretino, anormal, se é tudo junto em doses explosivas. O mundo sujeito a um estupor destravado à frente da sua principal potência. Ridículo e assustador.

E há a seca e os fenómenos climatéricos extremos por todo o lado: temporais, enxurradas, chuvas diluvianas, temperaturas insuportáveis. O ambiente a estrebuchar, o planeta em desequilíbrio. E meio mundo sem perceber o caminho que isto está a levar.

E, portanto, é isto. E mais cinquenta mil frioleiras a que, tivesse eu tempo e disposição, deitaria mão para lhes chamar um figo.

Mas não dá. Só consigo escrever se tiver tempo e disponibilidade para tal e esse, hoje, não é o caso.

Portanto, fico-me por aqui e, se conseguir, lá mais para o fim da noite, pode ser que cá volte. 


quarta-feira, agosto 16, 2017

Amar, verbo intransitivo




É coisa que se ensine o amor? Creio que não. Pode ser que sim.

O amor deve nascer de correspondências, de excelências interiores. Espirituais, pensava. Os dois se sentem bem juntos. A vida se aproxima. Repartem-na, pois quatro ombros podem mais que dois. 


-- Entendeu, Carlos?

Ela repetia sempre "Carlos", era a sensualidade dela. Talvez de todos... Se você ama, ou por outra se já deseja no amor, pronuncie baixinho o nome desejado. Veja como se moja em formas transmissoras do encosto que enlanguesce. Esse ou essa que você ama se torna assim maior, mais poderoso. E se apodera de você. Homens, mulheres, fortes, fracos... Se apodera.

E pronunciando, assim como ela faz, em frente do outro, sai e se encosta no dono, é beijo. Por isso ela repete sempre, como de-já-hoje, inutilmente:

-- Entendeu, Carlos?


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A língua que usei. Veio escutar melodia nova. Ser melodia nova não quer dizer que feia. Carece primeiro a gente se acostumar. Procurei me afeiçoar ao meu falar e agora que já estou acostumado a lê-lo escrito gosto muito e nada me fere o ouvido já esquecido da toada lusitana. Não quis criar língua nenhuma.

O importante não é aliás a vaidade de ter língua diferente, o importante é se adaptar, ser lógico com a sua terra e o seu povo. Falam que pra que tenha literatura diferente carece que tenha língua diferente... É uma semiverdade. Pra que tenha literatura diferente é só preciso que ela seja lógica e concordante com terra e povo diferente. O resto sim é literatura importada só para certas variantes fatais. É literatura morta ou pelo menos indiferente pro povo que ela pretendeu representar.


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Excerto, não sequencial, de 'Amar, verbo intransitivo - Idílio' de Mário de Andrade. A parte a itálico faz parte do Posfácio Inédito.



Lá em cima Marisa Monte interpreta Amor, I love you



As imagens pertencem ao filme The Graduate com Anne Bancroft e Dustin Hoffmann e, se lerem o livro, perceberão porque é que me lembrei de as colocar aqui


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Já agora: Mário de Andrade também poeta

Ode ao Burguês



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E, se aterraram agora aqui, aceitem a sugestão e desçam até à minha Estivália. É o post que se segue.

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Mas, se estiverem numa de entrar num outro comprimento de onda, então aceitem o convite e naveguem até ao meu Ginjal. Aí poderão contemplar o rio enquanto ouvem as minhas confissões: Porque escrevo no prazer eu incendeio-me. A música também é boa.

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terça-feira, agosto 15, 2017

Estivália





Agora em casa. Na televisão, o futebol. Desde ontem que eu estava a ser avisada que, desse por onde desse, a esta hora teríamos que estar em casa, que dava o sporting. Cá estamos. 

Estou de costas para a televisão. Trouxe o cadeirão baixinho para junto da janela que está aberta, trazendo do rio a aragem fresca.

Entardece devagar e a luz dourada vai pousando sobre a cidade. No outro dia, saindo pela Vasco da Gama, reparámos como estava branca a magnífica cidade. A luz branca, as casas brancas. Uma nesga branca ao longo do rio. Uma beleza flutuante de tão requintada e etérea.

Da família chegam-me notícias de férias. Está toda a gente de férias menos nós. Todos os que podem, claro, que a alguns a idade e a condição física já não dá para deslocações nem o conceito de férias se aplica na sua dimensão quotidiana.

Ontem ao fim do dia encontrámo-nos, nós e a ruidosa descendência, vinham eles da praia e nós do trabalho. Estivemos numa esplanada. Quatro meses juntas. Só se faz silêncio enquanto devoram caracóis, caracoletas, choco frito, pregos, bitoques. Logo que saciados, a tropa miúda levanta-se e correm e brincam e enchem de alegria todo aquele espaço que, felizmente, é amplo. E vá lá que estávamos numa ponta. Lembro-me, por vezes, que pode haver quem ali esteja querendo curtir a frescura do anoitecer em sossego. Mas é impossível mantê-los calados. So  o bebé ainda se porta bem-comportadamene. Ali mesmo comeu uma tigelona de papa, que lhe dei, consolada. De penalti despachou tudo. Sempre a rir. Já no fim, já todos de pé e os pimentinhas a brincarem, estavam uns quantos em cima de um banco de jardim. O meu marido agarrou num e ia dar-lhe um calduço, na brincadeira. Susteve-se à última hora, no justo momento em que, quem observava, o avisasse: 'esse não é nosso'. Era um outro miúdo que se tinha juntado à brincadeira.


Hoje fomos os dois caminhar na praia. Enquanto estava na água, reparei numa gaivora muito branca que dançava perto de mim. Depois veio à água e voltou a subir. A luz fazia-a recortar-se sobre o azul, ressaltando o branco reluzente. Tive pena de não poder fotografar. Também tive pena de não me pôr a fotografar os corpos transformados com que me ia cruzando. Espanto-me com a crescente invasão de tatuagens. Desfeiam os corpos. Uma rapariga com o corpo coberto com um pintura em negro, como uma renda. Podia ser bonito mas é tão estranho. Outros quase têm uma banda desenhada, tanta a bonecada. Um homem de aspecto normal, meia idade, com riscas às cores nas costas. Quase sinistro de tão louco. Não percebo esta moda.

Almoçámos por lá e, a seguir, já com máquina fotográfica, fomos fazer uma nova, embora curta, caminhada. As fotografias engraçadas que se conseguem fazer. Mas as mais engraçadas não as quero mostrar para que não pareça que estou a parodiar (quando, afinal, me limito a fixar o que vejo). Hoje vi uma rapariga gordinha, baixinha, com calções despropositadamente curtos e justos, com o cabelo pintado de fúcsia, com uns óculos escuros redondinhos. Parecia uma fantasia animada. Ao lado, um casal, também baixinhos e gordinhos, ar muito convencional e diria, vagamente provinciano e, no entanto, armados em góticos, todos de negro, quase siameses, de mão dada. Uma perfeita contradição dos termos. Se vestidos com trajes folclóricos haveria coerência mas, assim, qualquer coisa parecia não bater certo. E um homem de uns sessentas, muito pintas, todo muito arranjado, armado em atleta, com uma calmeirona, metade da idade dele, escultural, espampanante, muito morena, lábios inflados, completamente descapotável, cabelos pretos escorridos até à pela cintura que ela, ar pretensamente sexy, tombando a cabeça de lado, puxava para que se alojassem sobre um dos ombros. Não a ouvi falar mas juraria que era daquelas brasileiras que conseguem embeiçar portugueses babacas. E tantas mais figuras curiosas.


Começa a escurecer. Ainda não acendi a luz mas já não se vê lá muito bem. Tenho que parar de escrever.

Vou ler. Estou a gostar do livro que agora tenho em mãos. Leitura prazerosa, suculenta de boa. Gosto destes dias tranquilos, gosto de escrever e de ler enquanto sinto o frescor delicado que vem lá de fora. É época estival e eu já devia estar de férias. Mas, enfim, não tenho de que me queixar. Está-se bem.

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Lá em cima é Tell Me All About It interpretado por Laura Fygi & Michael Franks sobre fotografias de Michael David Adams.

Sobre os bacanos de pedra que aqui partilho convosco, transcrevo o que leio no Bored Panda:

In 2012 French photographer Leo Caillard partnered with the Louvre Museum for a project in which he makes classic statues "wear" modern-day clothing.

For the creation of "The Hipsters in Stone" art series, Caillard first photographed the statues, and then asked his friends to pose in the same position but with clothes like jeans, flannel shirts and even Ray Ban sunglasses. Then he finished his project with Photoshop.

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Até já. 

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A janela


Anni Leppälä -- Window (forest), 2009 



Encostas-te à janela e contemplas a noite mas não é à janela que te encostas nem a noite que contemplas. Fantasias. E, contigo, fantasias é verbo e é substantivo. As mãos cheias de letras, de palavras: de nada. A noite é lonjura. Em vão chamas mas não sabes por que nome deves chamar. Procuras o perdão para o remorso que te devora mas não é o perdão que procuras pois o orgulho devora-te o remorso. Frágil, frágil o teu amor. Forte, mais forte o teu orgulho. Mas dizes que não. Dizes que é saudade, simples saudade, que logo passa. E não sabes dizer de outra forma o que te toma a toda a hora, todos os dias, todas as noites, porque nada tem nome, nada tem hora.

Caspar David Friedrich -- Woman at the window

Alguém vive dentro de ti e invade a tua alma e agarra o teu coração e incendeia a tua carne. Espreitas pela janela. Do lado de lá apenas a noite por onde se arrastam os fantasmas, deixando vestígios de rosas intagíveis. Mas não são fantasmas, são sonhos, desejos. Fechas os olhos, inventas outras vidas, imaginas guirlandas nos cabelos do longínquo alguém que o teu coração ama. Flor a flor, carícia a carícia, colocas com desvelos afagos nos cabelos que nunca sentiste nas tuas mãos vazias.

De pé junto à janela. Os teus braços cruzam-se em torno de ti. Simulas o abraço que tarda em chegar. Lágrimas silenciosas que ninguém vê. Escreves cartas. Muitas cartas. Nunca as envias. Inventas vidas. Falas de ti e só tu sabes como tu, inteiro, ali estás, disfarçado de outro. 

Encostas-te à janela. Tu. Fechas os olhos. Sonhas que habitas a beleza que o distante alguém constrói no seu mundo onde tu não cabes. Frágil mundo, tão frágil. Frágil amor. Oh abençoado amor que tanto e tão sem esperança amas.  Oh amor feito de palavras, oh amor que não sabes amar. Vem contemplar a luz. Vem aprender a amar.

Victor Pasmore -- The Window
Why do you stand by the window
Abandoned to beauty and pride
And the whole broken-hearted host
Gentle this soul
And come forth from the cloud of unknowing
Then lay your rose on the fire
The fire give up to the sun
The sun give over to splendour
In the arms of the high holy one
For the holy one dreams of a letter
Of the word being made into flesh
Oh chosen love 


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E já que hoje me deu para transliterar letras de canções, e sem cuidados o fazer e sem pudor me apropriar de palavras que outros cantam, também sem pudor o convido a si a descer até ao que abaixo se segue, uma outra canção de amor. Stranger's Kiss

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In my dreams I miss you



Para todos os que sofrem por não estar juntos, para os que não sabem porquê mas não conseguem viver sem o outro, para os que vivem em carne viva porque lhes falta a pele daquele que o seu coração ama, para os que sonham sonhos vazios porque lhes falta a razão para sonhar, para os procuram nos outros o que só um tem -- o sorriso único, a palavra de amor, o toque das mãos -- para os que imaginam que o outro desapareceu para conseguirem suportar a sua ausência, para todos os que vivem pedindo que um dia o milagre aconteça e se reencontrem, para os que desejam ardentemente um abraço, um único abraço, o primeiro de muitos abraços, para os pedem um beijo, um único beijo, o primeiro de mil beijos, para os que chamam, para os que calam sem força para chamar. 


Para os que se sentem estranhos por tanto desejarem um amor impossível, para os que sonham com o que em sonhos parece possível. Para os que pedem a todos os anjos, a todos os santos, para os que em tudo querem acreditar, para os que se entregam às memórias em busca de alento, para os que fecham os olhos e ouvem músicas invisíveis, para os que são como crianças perdidas num mundo vazio, para os que sentem o tempo a passar sem que um vislumbre de esperança aconteça. Para....


Stranger’s Kiss


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As imagens são respectivamente parte de Danaë de Gustav Klimt (1908) e Angiolino musicante de Rosso Fiorentino (~1521)

Alex Cameron interpreta Stranger's Kiss em dueto com Angel Olsen

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Um feliz dia feriado.

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segunda-feira, agosto 14, 2017

Mark Zuckerberg (o Conquistador puritano), o Facebook e os mamilos e... a fúria da mamã...


Kate Moss, aos 43 anos, para a W Magazine


É sabido por quem por aqui me acompanha. Não tenho conta no Facebook nem tenciono vir a ter. Não há ali nada que me atraia. Pelo contrário, os potentes motores comerciais que movem a máquina do Facebook são de uma perversidade que acho assustadora. Gratuito para o utilizador normal, o Facebook é, na realidade, uma base de dados de interesse galáctico e desregulado e uma plataforma comercial que usa informação colhida nas preferências e comportamentos das pessoas para divulgar produtos e serviços, para induzir tendências, para manipular preferências.

Jean-François de Troy (1679 – 1752) -  Le bain de Diane

Por detrás do que parece um simples mural no qual as pessoas vêm fotografias alheias ou sabem de peripécias dos amigos ou exibem o seu prato de salada bio ou o seu sorriso de boca aberta enquanto dizem cheeese ou ba-ta-ta, há algoritmos a fazerem o seu trabalhinho para que a pessoa veja em primeiro lugar o que o Facebook decidiu ou para que a disposição do que é mostrado induza a reacção desejada.

Para além disso, há o valor incomensurável da infinita base de dados que é alimentada a todo o instante com toda a espécie de dados pessoais. O que pode ser feito a partir da comercialização desta base de dados já começou a ser visto aquando das mais recentes campanhas eleitorais e que conduziram aos efeitos que quem contratou os serviços da empresa de marketing político pretendia: a vitória dos clientes -- num caso a vitória do Brexit, no outro a vitória de Donald Trump.

Lucas Cranach o Velho (1472 - 1553) -- A Justiça

Mark Zuckerberg tem apenas 33 anos e, embora o seu ordenado seja de apenas 1 dólar anual, é já o ilustre detentor de uma fortuna que o torna a 5ª pessoa mais rica do mundo. Comprando as empresas que se mexem à sua volta, destruindo a concorrência e aventurando-se por caminhos que fazem tremer os que já lá estão, o jovem Zuck parece não conhecer limites.


Ao mesmo tempo que as suas empresas acumulam riqueza como se não houvesse amanhã, ele e a mulher resolveram criar uma fundação, a Chan Zuckerberg Initiative, dona de 99% das acções do Facebook, cujo objectivo é  "to advance human potential and promote equality in areas such as health, education, scientific research and energy". Na prática, uma poderosa empresa filantrópica, tão poderosa que assusta.


Jean Auguste Dominique Ingres (1780 - 1867)  - La Source

As movimentações do jovem Mark são seguidas com preocupação por quem sabe detectar sinais de potencial alarme. Leia-se, por exemplo, na Vanity Fair, o artigo Is Mark Zuckerberg Killing Silicon Valley?:

The exact nature of Mark Zuckerberg’s ambitions are a bit hard to pin down. At 33 years old, Zuckerberg has already built the world’s largest and most powerful social-media network; devoured the advertising and media markets; is threatening to put Hollywood out of business; amassed a $73 billion fortune and pledged to give most of it away in what could become the world’s most ambitious philanthropic enterprise. In two years, he’ll be old enough to run for president, a prospect that is being taken somewhat seriously in Silicon Valley, where various sources have told Vanity Fair he wants to be “emperor.”

Only Zuckerberg knows if those two impulses—to dominate the world and to save it—are in conflict. In the meantime, however, the Facebook founder and C.E.O. is not hesitating to ruthlessly expand his business empire in pursuit of whatever master plan he has in mind. (...)

Giorgione (1478 - 1510) -- A Vénus adormecida

No meio disto, parece até ridículo o puritanismo do Facebook. Quem por lá navega já deve ter sido informado das regras mas, ainda assim, transcrevo o seguinte excerto:

Nudez 
(...) Eliminamos fotografias de pessoas que mostram os genitais ou que se foquem em nádegas completamente expostas. Também restringimos algumas imagens de seios femininos se estas incluírem o mamilo. No entanto, permitimos fotos de mulheres a amamentar ou a mostrar seios com cicatrizes pós-mastectomia. Também permitimos fotografias de pinturas, esculturas ou outro tipo de arte que retrate nudez. As restrições na apresentação de nudez e de atividades sexuais também se podem aplicar a conteúdo criado digitalmente, a não ser que o conteúdo publicado se destine a fins educativos, humorísticos ou satíricos. São proibidas imagens explícitas de relações sexuais. Também podem ser eliminadas descrições de atos sexuais detalhados nitidamente.
Tiziano (1490 - 1576)  - Vénus com o Organista e com o Amor


No outro dia, o MCS (de No Vazio da Onda) dava conta que a sua conta no Facebook tinha sido temporariamente bloqueada por lá ter colocado uma fotografia do falecido Serge Gainsbourg (1928-1991) num dia de farra -- e tudo porque a fotografia mostra que, nesse dia, algumas foliãs estavam de mamocas ao léu.


Provavelmente essa fotografia ainda não almejou alcançar a categoria de 'arte'.

Mas o que é arte? Quem decide o que é arte ou não-arte? Não há pinturas de um classicismo irrepreensível e nas quais almas moralistas vêem pura pornografia?

Gustave Courbet (1819 - 1877) -- A Origem do Mundo

As imagens que aqui partilho -- com excepção da primeira que é, ela própria, um clássico entre as fotografias de Kate Moss -- as restantes são pinturas a que nenhum idiota ousaria negar a exibição. Contudo, algumas ou algumas deste tipo não podem ser expostas em galerias ou museus americanos por haver quem considere que ofendem a moral e os bons costumes.

O blogger, ferramenta da Google, que eu saiba, ainda não restringe a partilha de imagens com mamilos, nádegas ou que exprimam actos de amor (tanto mais que as disponibiliza no Google Arts & Culture).


No entanto, tendo recebido por mail um vídeo engraçado ('Embaraçoso...' ou 'Não chateiem a mamã') no qual a protagonista, no fim, aparece em nu frontal, quis inseri-lo aqui via youtube e o que aparece já é a versão coberta. Aqui o deixo na mesma.

Tudo é subjectivo, claro, mas o puritanismo e o moralismos nunca foram bons conselheiros e, em nome deles, grandes patifarias têm sido cometidas ao longo dos tempos. O que seria normal seria que as mentes fossem evoluindo mas, como se vê, a regressão é que parece estar a fazer o seu caminho.


Que mal fazia ver-se o corpo da mamã?

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E, em pós-post, aqui fica como recomendação, a resposta a um comentário meu n'A Matéria do Tempo. Com o Fernando aprendemos sempre.

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Se não fosse por coisas, nomeadamente por ser avessa a selfies, despedia-me com um auto-retrato meu. Assim, despeço-me com o mais parecido que arranjei. Só me falta o gato.

Mulher reclinada e nua com gato -- Pablo Picasso (1881 - 1973)

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E uma boa semana a todos quantos por aqui passam, a começar já por esta segunfa-feira.
Be happy.

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domingo, agosto 13, 2017

As flores, os frutos, o silêncio





Tínhamos um pessegueiro perto de casa que se enchia de pêssegos pequenos que, mal medravam, logo caíam. O chão sempre cheio de fruta imprestável. Depois apanhou uma doença, as folhas encarquilhadas, todo ele a pedir um fim. Fizemos essa caridade. Serrado pela base.

Anos depois, aparecem rebentos de pessegueiro por todo o lado. Vamos cortando porque despontam no canteiro do alfazema, no canteiro das rosas. A um dos rebentos deixei ficar. Está ao pé das sardinheiras, não estorva muito. É ainda um pé esguio, quase nem se dá por ele, Pois ontem, para minha surpresa, tinha vários pêssegos. Os meninos apanharam-nos e levaram-nos. Penso que sobram uns dois ou três. 


Subsiste o verde apesar do calor. Mal se vê o céu. A névoa persiste. Já não cheira a fumo mas o cinzento que oculta o azul deve ser feito de cinzas.

No entanto, não sei como, sobre as árvores e sobre os arbustos vejo a luz como se o sol conseguisse fazer brilhar a folhagem apesar desse véu.


Como habitualmente, estivemos a desbastar árvores e a limpar algum mato. Como não se pode usar máquinas, que poderiam fazer soltar alguma faísca, é tudo esforço braçal. Pelo meio, vou-me encantando com a perfeição das pequenas flores, com a simetria dourada que se oculta por entre a folhagem seca.

Fotografo, e é uma forma de descansar. A natureza tem uma força impressionante. E uma variedade infinita. Por todo o lado descubro maravilhas. Hoje, por várias vezes, senti bichos a mexerem-se à minha passagem, um rumor, um deslizar por entre as folhas secas. Não sei se são cobras, lagartixas, outros animais. Não sei como sobrevivem sem água, sem uma frescura, um orvalho. 


Fotografo tudo e, por onde passo, vou descobrindo como o tempo vai embelezando as coisas. Uma rocha acariciada pelos ventos, pelo sol, pela chuva, um tronco morto, uma raíz arrancada à terra, a madeira ganhando novas texturas e cores. Sendo que a beleza provoca um sentimento de satisfação em quem a contempla, imaginem como me sinto sempre tão encantada vendo beleza em tudo isto.

Agora estou a descansar. Tenho aqui comigo 'Amar, verbo intransitivo -- Idílio' de Mário de Andrade. Vou ler e, imagino eu, adormecer. Apesar do calor, o tempo hoje talvez não esteja tão quente. Convida ao sereno descanso. Está um silêncio suave. As cigarras não se fazem ouvir. Apenas de vez em quando, uma leve aragem que faz cantar a caruma. Há pouco, um sino ao longe pontuou este tão doce silêncio que os pinheiros perfumam.


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Ficha técnica do bailado lá em cima: 

Compañía Nacional de Danza Multiplicidad. Formas de Silencio Y Vacío 
Nacho Duato. 

J.S. Bach - Anner Bylsma-Suite No. 1 in G Major, BWV 1007/I. Prélude

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Who by fire


Mulher na Aldeia do Mato, Abrantes
by Rui M Pedrosa



Acordei com cheiro a fumo. Cheguei a casa dos meus pais e na rua um cheiro a fumo. Cheguei aqui, in heaven, e cheiro a fumo e uma névoa pardacenta no ar. De tarde, uma gigante onda de fumo crescia no céu, o cheiro sempre presente.

Muito calor, nenhuma humidade, um pasto perfeito para a besta. 

Vejo a televisão: fogo por todo o lado. O meu país em chamas. Mais de 4.000 bombeiros no terreno. Autoestradas fechadas.

Não é o calor e a falta de humidade que desencadeia os fogos, isso apenas ajuda a propagar. Isso e o vento. O rastilho tem mão humana: seja por incúria, distração, interesse económico, maldade ou loucura. Ouço as notícias: muito fogo posto. Muita gente detida, outros apenas interrogados. Um dos grandes incêndios, um que devorou serras e vales, e galgou estradas e rios e lambeu casas e cegou árvores aos milhares foi ateado por uma mulher de cinquenta anos. Chegou-se ao mato e com um isqueiro pegou-lhe fogo. Saíu de casa e deliberadamente provocou o incêndio que destruíu milhares de hectares de floresta e colocou em risco a vida de quem vivia naquelas aldeias e dos bombeiros que por lá andaram a consumir-se. Que razões terá a mulher? Que loucura ou desespero tomou conta dela?


Parece que o perfil típico dos incendiários se divide entre doentes com depressão ou alcoólicos. Por isso, não sei como se podem prevenir estas catástrofes quando os causadores são pessoas que não obedecem a comportamentos racionais.


Espanto-me com este fenómeno. Um país tão pequeno, gente aparentemente normal, pacífica, agora com o desemprego a diminuir, o poder de compra a melhorar, supostamente menos razões para se cair no desespero e, no entanto, isto que se vê. 

Parece não haver outro país na Europa onde tanto fogo seja ateado. Será que as televisões não deveriam mostrar tantas imagens de fogos e de gente aos gritos? Será que quem ateia fogos, por um motivo ou por outro, quer causar destruição e pânico idênticos aos que vê na televisão?
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Na Albânia também a braços com uma onda de calor
by Gent Shkullaku

Mas, enfim, de uma forma ou de outra, em maior ou menor escala, e fogo por incêndio ou por bombas ou rebeliões, parece que uma onda abrasiva está a invadir o mundo (e nem vou falar da anormalidade a que se assiste entre as aberrações que estão à frente dos Estados Unidos e da Coreia do Norte).

Bombardeamento aéreo em Damasco, Síria
by Ammar Suleiman

Nas ruas de Caracas, Venezuela
by Ronaldo Schemidt

Tomara que chova, que arrefeça, que tudo volte ao normal, que os ânimos serenem, que o bom senso e a saúde mental prevaleçam. Se isto dura muito mais tempo corremos sérios riscos de que o mundo se torne um lugar ainda mais perigoso.
E claro que isto que estou a dizer é uma banalidade mas, perante o que está a passar-se, não consigo formular ideias originais.
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Vi as fotografias que aqui usei no The Guardian e, para nos fazer companhia, lembrei-me da canção do Leonard Cohen embora a letra não tenha especialmente a ver.

And who by fire, who by water, 
Who in the sunshine, who in the night time, 
Who by high ordeal, who by common trial, 
Who in your merry merry month of may, 
Who by very slow decay, 
And who shall I say is calling? 
(...)
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E, a propósito ainda de fogo, lembrei-me de quando eu era pequena e, pelos santos populares, havia fogueiras nas ruas e da atracção pelo risco que aquilo me provocava, levando-me a saltar por cima, mesmo quando elas eram largas e estavam com fogo alto. Mas o dia foi algo cansativo (mas muito bom!) e eu estou aqui só a adormecer enquanto escrevo. Por isso, não sei se vou conseguir escrever sobre isso e chegar ao fim.

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Até já ou até amanhã

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sábado, agosto 12, 2017

Contos eróticos





Bem, hoje está a dar-me para isto, para coligir. A culpa é de um mail que recebi.

Resolvi, pois, colocar alguma organização para facilitar a vida a quem está na praia e se dá ao trabalho de tentar ler histórias que escrevi.

As coisas que eu já escrevi, senhores... Não dá para acreditar. É como quando olho para a quantidade de carpetes e carpetes de Arraiolos que já fiz: como foi tal possível? Terei sido mesmo eu? Acho que faz sentido duvidar.

Aqui tenho andado a garimpar... mas não é tarefa fácil. Já nem me lembro dos nomes que dei a várias histórias. Ao todo, já publiquei cerca de 4.500 posts. Um horror desencantar coisas no meio disto. Por vezes coloquei etiquetas mas em muitas não. Só com alguma minúcia e muita paciência conseguiria organizar isto. Mas isso são características que não integram o meu DNA.


Portanto, depois de ter compilado todos os capítulos de Lu, a mulher infiel e da Dindinha, cansei-me de andar à pesca e lembrei-me de ir à procura de contos mais ou menos eróticos, pensando eu que isso seria canja. Sim, sim... Acho que já escrevi montes deles mas, assim de repente, só desencantei cinco. Imagine-se. Mas lá está: quando me dedicar a escrever argumentos para seriados calientes, logo me embrenho na pesquisa a material histórico. Ou, então, deixo-me de compilar prosa vintage e escrevo mas é mais contos, sempre será material de apanha recente, da saison.


Aqui deixo os respectivos links para os cinco que consegui mondar no meio do matagal que é este blog. Enjoyez.

Contos eróticos



Perigosa sedução
(a 1ª parte do post não tem nada a ver; o conto começa onde se lê: Se eu contasse ninguém me levaria a sério)



Uma historinha de um erotismo muito inocente



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E queiram continuar a descer que, nos dois posts seguintes, como acima referi, há ligação directa a dois folhetins, o da Lu e o da Dindinha.

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Dindinha
- Todos os capítulos -





Embalada pela experiência organizativa do post abaixo -- no qual pus em ordem a vida de Lu, a mulher infiel -- fui-me à Dindinha. Acho que devia ter chamado a este folhetin Dindinha e a Prima; mas não dei, paciência. 

Gostei de escrever as peripécias daquelas duas (delas e do Tom) e, de vez em quando, apetece-me voltar a este trio maravilha. Ocorrem-me situações mirabolantes e, devo dizer, até a resvalar para o impróprio para consumo (isto na perspectiva, claro, de que, sendo este um blog de família, o que aqui escrevo deve poder ser lido -- sem embaraço -- por familiares meus, vizinhas ou meninas no convento). Mas, enfim, esses desenvolvimentos ficam para quando me tornar guionista de séries para televisão (ou netflix, vá). 


Para já fica a versão em português-suave do folhetim, em todos os seus fascículos, do primeiro ao último.

Dindinha










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Acrescentos da história à revelia da autora:





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[Espero não ter saltado nenhum capítulo. Caso descubram que me escapaou algum post, apitem, ok?]

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Lu, a mulher infiel
- O folhetim em todos os capítulos -
(A pedido de várias famílias)





É verdade, Paulo. Sou meio desorganizada, confesso (e o 'meio' é auto-simpatia minha). Quando me dá para escrever folhetins, vou escrevendo em posts avulsos e, se algum dia quiser relê-los de fio a pavio, está bem, está. 

Volta e meia os Leitores pedem-me: Porque é que, no fim, não faz um apanhado de todos os capítulos? E eu fico a pensar: Pois, devia mesmo ter alguém que me fizesse essa simpatia. Porque eu gosto é de escrever, não é de andar a organizar o que escrevo. Então, com luvas de pelica, sugiro ao meu marido: Olha lá, podias organizar um bocado aquilo. Mas nunca tenho sorte. Pergunta-me: 'Mas achas que sou maluco ou quê?'. E pronto, ficamos assim. 

Mas hoje, deu-me para ser bem mandada e, portanto, do 1º ao último capítulo, aqui estão os links para todos os capítulos da história da Lu.
E só espero que lido assim, de seguida, não apareçam inconsistências. Escrevo na hora, sem pensar, sem ler o capítulo anterior -- e, no fim, poupo-me: nunca releio. Portanto, já sabe, se der com muitos disparates, faça o favor de fazer de conta que não dá por eles. Mas se forem de susto, então, faça a caridade de me informar. Está bem?
Boas leituras (espero eu).

Lu, a mulher infiel 













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[Espero não ter saltado nenhum fascículo]

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E a si que aí está envio um sorriso e um abraço e os votos de que este sábado seja mesmo bom.

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sexta-feira, agosto 11, 2017

Patrícia Gaspar e a lei da rolha


Numa empresa ou num grupo empresarial (e, presumo, em qualquer organização profissional que tenha uma certa dimensão) existe sempre um departamento de Comunicação. Para além da Administração, só as pessoas desse departamento (e não todas) estão autorizadas a falar em nome da empresa. Para além disso, existe sempre um Manual de Crise que é do conhecimento de toda a gente. Vários tipos de crise estão ali descritos e, para cada situação, existem orientações: o que fazer durante, como mitigar os efeitos, o que fazer depois (para recuperar), o que comunicar, com quem comunicar, etc.

Isto é imprescindível. Não passa pela cabeça que, havendo um problema que chame a comunicação social, qualquer um pudesse pôr-se a dar entrevistas. Numa organização cada pessoa tem a visão daquilo que conhece e, portanto, se lhe fizerem perguntas de outra área vai dizer que não sabe -- podendo tal ser usado para dizer que quem lá está dentro não sabe do que se passa -- ou vai pôr-se a dar palpites sobre matérias que desconhece, dizendo, certamente, toda a espécie de disparates. 

A pessoa que é responsável pela comunicação encontra-se no centro de uma rede que se monta e através da qual a informação flui de forma articulada, de modo a que, quando fala, sabe transmitir a informação mais actual, mais fidedigna e mais fundamentada. Aos outros -- os que, em situação de crise, temos é que estar calados e deixar falar quem sabe -- não passa pela cabeça falar em lei da rolha. É assim não porque tenhamos os nossos direitos de falar cerceados mas porque há regras, bom senso e sentido de responsabilidade.


Portanto, quando foram os incêndios, ver o espectáculo de toda a gente a opinar, bombeiros aqui e ali, comandante daqui e dacolá, protecção civil, o senhor da liga dos bombeiros, o secretário de estado e a ministra, o cão, o gato e tutti quanti era, para mim, coisa deplorável pois o resultado foi o que se viu: desinformação, azo à especulação, palco a chicas-espertas e boateiros, alimentar programas e programas transbordantes de comentadores.

Quando, finalmente, se soube que a comunicação sobre os incêndios iria ser centralizada, caíu o carmo e a trindade. Toda a espécie de mariazinhas saíu, em histeria, rasgando as vestes: é a lei da rolha! é a lei da rolha! Parecia que vinha aí a censura, uma ataque à liberdade de expressão. Eu bem sei que gente parva que nada conhece da vida só diz disparates e, à falta de assunto, desata a ladrar a cada osso que lhe atiram. Mas cansam, causam poluição sonora e social. Faço zapping mas, intimamente, fico maçada.

E então, eis que no meio do foguetório dos caniches, surgiu Patrícia Gaspar. Segura, tranquila, demonstrando um conhecimento profundo sobre o que fala, ela conseguiu calar a papagaiada e, pela sua competência, ela passou a ser voz que informa o país sobre os incêndios. E nunca mais as catatuas e caniches ousaram pregar contra o profissionalismo que esta medida demonstra. E ninguém ousou levantar cabelo face aos conhecimentos que ela evidencia. 


Diariamente, de manhã e à tarde, neste período de verão severo, com ventos, altas temperaturas e baixíssima humidade relativa, e em que tantos incêndios devoram o país de norte a sul, surge esta mulher que sabe falar, que sabe transmitir o que se passa, que fala sem ambiguidades, que não foge ao que lhe perguntam, que não é alarmista nem simplista, que impõe respeito e transmite conhecimento de causa. Ouvimo-la e acreditamos que há uma estrutura a zelar pelo país nesta situação em que a crise persiste.

E daqui eu a louvo. Não sei que idade tem, não sei qual o seu percurso profissional, nada sei da sua vida. Nem isso interessa.

Mas vejo que deve ser uma profissional de mão cheia e que, por onde passa, deve deixar impressa a marca da qualidade, do rigor e, acredito, da empatia.

Por isso, salve, Patrícia. E obrigada.

E, através dela, os meus agradecimentos a todos quantos, de norte a sul, arriscam a sua segurança -- e a sua vida -- no combate a tantos e tão violentos incêndios.

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E queiram continuar a descer caso vos apeteça saber de tantos cisnes que, afinal, não são cisnes e de tantos candidatos a autarcas que apena o são por ambição pessoal, por clubite partidária ou por frete. É ver para crer na quantidade deles (e delas) que por aí andam com sorrisos de plástico pela beira das estradas. Isso e também uma galinha insuflada. E peixinhos, Jorge, tantos peixinhos.

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Vários cisnes e nenhum o é


Passo pelos cartazes autárquicos e interrogo-me sobre a eficácia dos meios usados nas campanhas eleitorais.

Por exemplo, vejo a Cristas da Coxa Grossa em grandes cartazes mas em todos eles não é ela, a conhecida peixeira das arruaças e dos papéis coloridos com bonecos levados à Assembleia para ilustrarem ideias imaturas; quem ali está é uma figura em versão Nossa Senhora da Assunção, toda ela photoshopada, uma verdadeira santinha, sem rugas, expressão beatificada. 


Depois é a Teresa Leal ao Coelho com dizeres fúteis, infantins, certamente inventados por marketeers saídos da escola. 


E fico a pensar que esta gente acha que pode ser o que lhe dá na bolha mesmo que não tenha vocação ou preparação para issoou mesmo que ninguém as queira para tal. Retoques nas fotografias e slogans a la minute e aí estão elas e eles, geralmente gente do aparelho, sorrisos plastificados em caras pespegadas em cartazes de beira de estrada.

Depois, em cima disto, há as guerras figadais entre candidaturas: gente que parece odiar-se como se isto fosse uma guerra de seitas e não uma coisa limpa entre gente que, com nobreza de carácter, quer servir as populações. 

Não sei qual a utilidade de cartazes, não sei qual a utilidade das tretas das campanhas nem sei se tudo isto das lutas autárquicas não devia ser limpo à mangueirada. 

Claro que há executivos de grande competência e claro que há gente que está ali para pugnar pela sua terra. Não é isso. Aquilo de que falo é do clima tribal, é da falta de senso na forma como encaram as campanhas eleitorais, é do espírito caciquista que parece estar frequentemente presente nas gentes por esse país fora, como se um lugar numa Junta de Freguesia fosse caso de vida ou de morte, é do vale tudo para fazer uma lista e para tentar tornar credíveis candidaturas que não valem um caracol.

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Olha, a propósito: tantos patinhos.

Ah, não, não são patinhos, são cisnes.

Ah não, espera lá, cisnes não devem ser porque têm pescoço curto... Serão patos marrecos?

(Olha, e um pombinho...)

de Jeff J Mitchell em Edinburgh, UK, in the Guardian
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Olha, aqui abaixo quatro patinhos saltitões. Tão lindos. Tão fofinhos.

Ah, não. Espera lá... São quatro meninas disfarçadas de cisnes.

Ups... Não... São quatro calmeirões disfarçados de bailarinas.

[Les Ballets Trockadero de Monte Carlo no Lago dos Cisnes]

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Olha, os patinhos agora transformaram-se em príncipes. 
Ah não, espera... transformaram-se foi em sapos... 
E olha como eles dançam bem... Ah não, também não são sapinhos, são homens.
Caraças.

(Mas nada é o que parece, caraças...?)

[Guangzhou Military Performance Group - Os cisnes transformam-se em sapos]¨

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Olha... outro cisninho...!

Mas este é um cisninho-gordinho. E tem uma franja loura. Que lindo.

Não... espera... não... não é um cisninho. Nem sequer um patinho...

É uma galinha. É a galinha Donald.

E aterrou ao pé da Casa Branca...
(E logo agora que o pato Trump está a trabalhar no campo de golfe e, para se desenfastiar, a ver se arranja um sarilho nuclear).


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Eu e as pessoas que conheço, sem excepção, sabemos em quem vamos votar desde sempre. Para quê estas campanhas, feitas nestes moldes? Alguém me diz...? E aquelas duas, as pafiasas Cristas e Leal ao Coelho, estão nisto para quê? Para ver se conseguem um lugar de vereadoras? Para salvar a honra do convento e terem candidato? Senão é para quê? Para irem armar peixeirada para a Câmara?

Haja paciência.

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E assim estou, como aqui me vêem, cheia de dúvidas existenciais. Assuntos profundos que me tiram do sério, é o que é.

Portanto, permitam que me mantenha no mesmo registo e termine com alguém que, bem mais do que eu -- oh, bem mais -- sabe tecer reflexões verdadeiramente filosóficas.

E é, até, caso para dizer: ena, Jorge, tanto patinho...!

(Ah, não, perdão, também não é bem isso, é mais: Ena, Jorge, tanto patinho...!)


[João César Monteiro em Vai e Vem -- Diálogo entre pai e filho]

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma feliz sexta-feira.

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quinta-feira, agosto 10, 2017

Deixar-vos-ei palavras





Tenho estado a reler a entrevista que a Anabela Lopes Ribeiro fez, já lá vão uns cinco anos, ao meu querido mestre Alberto Vaz da Silva, pessoa encantadora.


Transcrevo um pouco:


Como é que um rapaz com o seu percurso intelectual, cultural e pessoal não tinha dúvidas?
É muito o meu temperamento e o meu carácter. Há uma grande predominância de fogo na minha textura psicológica.
Olhando para si achei que podia ser água. Porque tem uma leveza, como água que corre. Porquê fogo?
Porque sou um apaixonado, por temperamento. O apaixonado atira-se facilmente para as coisas com confiança, com certezas. Penso que sou uma pessoa modesta, não gosto de dar nas vistas. No entanto, na minha sombra, sempre fui muito seguro do que fiz. Sabia o que gostava, o que não gostava. Se fazia o que não gostava sabia porquê. Se fazia o que gostava ia até ao sétimo céu. Essa pergunta traz-me uma reflexão: tive muita sorte na vida. Muita coisa me foi dada, como a Helena. As coisas caíram-me em cima da cabeça, ou através de pessoas. No meu último livro, sobre a Sophia de Mello Breyner, pus em epígrafe Saint Martin, filósofo do século XVIII, que esteve na base da alquimia e de grandes conhecimentos esotéricos: “Houve certos seres através dos quais Deus me amou”. Aconteceu-me a vida inteira.
(...)
Por coincidência, antes de começarmos a gravar, perguntei-lhe o que é que significa a letra “f”, e disse-me que é a letra mais reveladora, mais importante.
É a mais sintetizadora. É sempre a primeira coisa de que se vai à procura, o “f” minúsculo. O “f” escolar tem um traço inicial, depois vai para cima (o espírito, a imaginação). Depois passa por uma linha (o real, a vida de todos os dias, a actividade). Vai para baixo (os instintos). Volta para cima (mostra como é que a pessoa dominou ou domina os instintos e volta aos outros). Outra vez a linha, agora para a direita. Percorre os quatro espaços da escrita, os quatro pontos cardeais. E também o passado, o presente e o futuro.
Há pessoas que escrevem “f” a mais. O inconsciente tem esta coisa espantosa de empregar despropositadamente uma determinada letra. Quando há “f” a mais é mau sinal: significa que a pessoa ainda não se encontrou. Quer desesperadamente encontrar-se, mas está a lutar contra moinhos de vento. Quando não há “f” é uma tragédia: a pessoa desistiu de si.

Sobre o f, que ele diz ser a letra mais reveladora, já aqui o contei mas repito-me. No fim da aula em que ele se referiu ao f, mostrei-lhe o meu. A sala estava na penumbra, ele rodeado das suas devotas, não me viu antes de observar a folha com a letra e de ter dito. Só depois olhou para mim e sorriu, dizendo-me que eu poderia saber se era ou não. Tinha dito: 'O f de uma sedutora'. Sim, sou. Mas só às vezes. E sei disfarçar.

[Um apontamento pessoal, irrelevante. Não consigo analisar a minha letra. Não quero, não me interessa]

Mas, de fez em quando, na blogosfera há quem mostre a sua forma de escrever. Mesmo sem querer, esboço logo uma opinião. A forma de escrever não engana e eu, que não sou dada a esoterismos de qualquer espécie, não olho isto como uma coisa do domínio da devinação. Somos a forma como nos manifestamos, incluindo através da escrita à mão, é a nossa impressão digital. Não me lembro de alguma vez me terem dito que a minha análise foi ao lado. Só me intimido um bocado quando me ponho a adentrar pelas miudezas das pessoas. Precisava de mais folhas escritas para poder ter a certeza de que não estou enganada e, geralmente, só tenho uma página. Não pode ser levianemente que se escreve que a pessoa é insegura, que disfarça e se arma importante porque receia que percebam o medo que tem que descubram que é frágil e pouco sabedora. Ou que a pessoa receia tomar decisões com medo de desagradar. E dizer isso a alguém que tem um poder enorme, incluindo o de me prejudicar. Neste caso, bastante tempo depois, esta pessoa ainda dizia, como se estivesse a brincar: 'Viu-me a escrita, deu cabo de mim'. E eu: 'Nada... Tanta coisa boa que vi' mas sabendo que o que lá vi o torna um erro de casting no que está a fazer e que, lamentando-o, tive que lho dizer, não explicitamente assim mas a bom entendedor... Ou a outro dizer que é como se fosse bipolar e que é mentiroso e que tem dúvidas quanto à sua sexualidade. Isto a um que encena ser um conquistador. Não é levianemente que se dizem coisas assim. Ou a alguém que parece muito bem disposta que tem que ter cuidado para não se deixar cair em depressão. É quase a medo que me arrisco a dizer. É que posso estar a ver mal...


Outras pessoas são solares. Uma escrita fluida, solta, arejada, bem estruturada na forma, no balanço, no andamento. Olha-se e vê-se ali uma pessoa motivada, realizada, boa companhia. Olha-se e vê-se que olha a direito, que sabe sorrir, que sabe amar, que sabe viver. 

Ver a escrita e a assinatura de Trump é ver tudo. O disparate completo, as contradições, as tentativas de disfarce. Não engana. Compará-la com a de Obama é comparar a noite com o dia.

Já recebi, por mail, digitalizações de páginas manuscritas de leitores. Na medida do possível e apesar de a amostra ser curta, tenho ousado dizer o que vejo da pessoa que escreve. É como um blind date: arrisca-se tudo às cegas, sem conhecer a pessoa e sem ter como aferir se a leitura está a sair correcta.


E, note-se, sendo eu devota das letras, sou, na verdade, uma pessoa sobretudo dos números. A minha formação académica e a minha vida profissional sempre se moveram mais sobre a racionalidade, ou seja, mais sobre a objectividade da análise dos números do que em volta de subjectividades, emoções, sentimentos ou crenças.

Portanto, é colocando toda a minha racionalidade na análise da escrita que digo o que vejo, face ao que aprendi. E o que aprendi nisto da grafologia foi, sobretudo, a ver, a estar atenta aos sinais.


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Mas, enfim. Não era sobre isto que eu vinha aqui falar. Porque hoje tinha uma reunião com um senhor vereador e a reunião foi marcada para uma hora que tornava absurdo voltar ao trabalho, acabei por ficar com tempo livre e, como se estivesse de férias ou em dia feriado, feliz da vida, meti-me ao caminho e desabalei-me para o meu lugar de perdição. Dia de vendaval. Mas quando se gosta de um lugar, gosta-se no matter what. O rio picado, um friozinho intrusivo. Eu de verão, toda frescuras e o vento a percorrer-me a pele. Um sol magnífico, aquele sol dourado do fim da tarde. E eu, sentindo-me turista, a fotografar tudo -- paquetes, veleiros, cargueiros, namorados, gaivotas, gente solitária, o azul das águas e do céu -- por ali andei, matando saudades. Há tanto tempo que não conseguia estar no meu Ginjal.

Talvez seja uma questão de auto-disciplina e imposição mental: forçar-me a colocar em plano de igualdade a minha necessidade de caminhar à beira do rio, de fotografar, de ter tempo de qualidade para mim ao longo da semana e a minha responsabilidade profissional.


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E agora?

(...) 
the tree outside doesn't know:
I watch it moving with the wind
in the late afternoon sun. 
there's nothing to declare here,
just a waiting.
each faces it alone. 
Oh, I was once young,
Oh, I was once unbelievably
young!

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O post talvez tenha acabado por ter um tom nostálgico mas foi por acaso, mesmo sem querer. Se estivesse com mais tempo, escolhia um outro poema. Aliás, tinha escolhido outro mas era de uma tal sensualidade que me pareceu não ter muito a ver com o texto. Então, retirei-o e já sem grande cabeça para puxar por ela, ficou este que é desalentado mas que fica apenas por ser bonito. A verdade é que conjugado com a letra da música que escolhi lá para cima, envolve isto num véu de melancolia e despedida e não é assim que me sinto, caraças, muito longe disso. Não se deixem contagiar, ouviram? Se não fossem duas da manhã refazia isto tudo. Assim, olhem, não liguem.

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As fotografias foram feitas ao cair do dia no Ginjal
Lá em cima Patrick Watson interpreta Je te laisserai des mots
O poema So Now? de Charles Bukowski é lido por Tom O'Bedlam

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E queiram continuar a descer, caso desejem ver o Jim Carrey a sublimar o seu mal de coeur através da pintura.

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