Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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sábado, março 25, 2017

Como se seleccionam pessoas para um trabalho?
(Há receitas infalíveis? Se houver, por favor, digam-me)


Estou incapaz de ter o que dizer. Há na vida qualquer coisa de muito incompreensível. 




Por exemplo. Uma pessoa vive a vida inteira uma vida oca, frustrada. Desperdiça a vida, ocupando-a com insignificâncias que são exponenciadas a ponto de parecerem emergências. Por tanto se devotar a esses insanos labores, a pessoa espera reconhecimento. Como os outros acham absurda aquela devoção, não mostram o esperado reconhecimento. A pessoa sente-se, então, vítima de incompreensão, ainda mais frustrada. O tempo passa, a pessoa está na meia idade e praticamente não tem amigos, também se afastou da família. Nunca teve tempo para eles, a sua prioridade sempre foi outra. Entra em depressão -- que não reconhece pois acha que os problemas estão nos outros e não nela. E eu olho e fico com pena e admirada. Como é que pessoas assim não percebem que passa um ano e outro e outro e que, se olharem para trás, não verão nada, só vazio? Trabalham de manhã à noite e nada mais fazem na vida. No dia em que deixarem de trabalhar os outros respirarão de alívio porque uma pessoa assim é uma nuvem negra carregada de recriminações. E este é um caso real, igual a tantos assim. 

E outro. Uma pessoa escreve maravilhosamente. É culta. Tem graça. É ágil. Está a milhas de muitos outros cujos nomes inundam livrarias em livros que valem zero ou assinam crónicas regiamente pagas e que valem menos que um chavo. E, no entanto, quando tinha tudo para produzir obra de qualidade em nome próprio, esgota a sua arte e perícia em vacuidades ou em trabalho anónimo. Os anos passam, porque sempre passam, e um dia será tarde para tentar repôr a justiça para com os dons que possui. Também é um caso real.


Antes de sair, colega foi levar-me um dossier com candidaturas para eu, durante o fim de semana, dar uma vista de olhos a ver se algumas me interessam para se dar início ao processo de recrutamento. Muita gente, bons currículos. Há sempre, em mim, alguma angústia quando faço isto. Forçosamente ponho logo algumas de lado. Não é possível seguir com muita gente até escolher um, perder-se-ia muito tempo. No entanto, os CVs são muito parecidos. Procuro alguma coisa que revele alguma diferença, que chame a minha atenção. Mas não: formatos normalizados, informações sintetizadas, também praticamente normalizadas. A maior parte tem fotografia. Gosto quando estão a rir, gosto quando detecto descontracção ou simpatia. Fazem-me impressão os que se mostram completamente formais, circunspectos. No entanto, temo cometer injustiças. Já me parecem incompletos os que não têm fotografia. Procuro hobbies, actividades que não tenham a ver com a profissão. A maior parte omite isso.


Aparece-me um que parece muito bonito, atlético, brasileiro, CV bem estruturado. Quase me apetece pô-lo no topo da short list.
(Depois, ao ter esta ideia, penso que deve ser assim que os homens escolhem candidatas mulheres). 
E eu tenho aqui para cima de uma dúzia de candidaturas e, no entanto, apenas uma é de uma mulher. Aparece-me um que não diz a idade mas que, pela fotografia, imagino que ande acima dos cinquenta. Cursos que não acabam, bons cursos. Não sei quantas empresas por onde passou. Agora desempregado. Dá ideia que, ao longo da vida, não conseguiu perceber qual a sua vocação ou não conseguiu adaptar-se a nenhum dos trabalhos que teve. Ou, então, não teve sorte. Fico mais angustiada ainda. Ponho-o de lado? Estava a pensar em alguém novo, sangue novo, disruptivo. Custa-me muito isto. É a vida das pessoas nestas folhas que aqui tenho espalhadas ao meu lado, no sofá.

Depois de uma manhã um bocado complicada -- a altura das avaliações, quando levada a sério, pode ser um bocado desconfortável, especialmente se, do um dos lados lados, está alguém avesso a isso como é o meu caso -- e antes de uma tarde também agitada, breve pausa à hora de almoço. Fuga para lugar de eleição. Vontade de me sentar e ficar a ler. Vontade de folhear longamente. Sempre novidades. Ou talvez não, talvez apenas os meus olhos descubram coisas não vistas antes. Tenho aqui comigo junto aos CVs um belo livro. É pesado, muito texto, muitas poesias. Gosto da capa. Espreito uma e outra vez e agrada-me. Tem um CD que certamente vai acompanhar-me nas  deslocações pela cidade.

Quem enviou as suas candidaturas não sonha que a decisão está nas mãos de alguém que lê os livros que eu leio, que pensa como eu penso. 


No verão seleccionei um em que os que o entrevistaram, numa primeira triagem, estavam tentados a afastar dizendo-me que era um despassarado, se tinha perdido ao ir para lá, tinha chegado atrasado, tinha dado respostas 'ao lado', parecia estar um bocado noutra. Tocaram logo campainhas dentro de mim. Está lá agora a trabalhar. Uma pessoa incrível, incomum. Nada interessado num trabalho em horário normal. Aceitei. Fez ele o horário. Quis apenas uns meses. No outro dia, combinei que lhe propusessem um contrato de 1 ano, melhores condições. Para grande espanto de quem pensou ir dar-lhe uma boa notícia, não quis. Não quer prender-se. Todos espantados. Eu achei graça. Fui ter com ele: 'então, não quis assinar o contrato?'. Ele riu, que não, só até às férias, que não sabe o que vai fazer a seguir, que até pode ser que continue mas que agora não sabe. Fiquei contente. Mantém-se igual a si mesmo. Livre. Ainda bem. Privilégio é tê-lo connosco mesmo que neste regime completamente atípico. Nestas coisas acho que ser mulher faz alguma diferença. Aceito estas situações. Aliás: agradam-me.


O que me cansa, e cansa cada vez mais, são as pessoas completamente convencionais, que traçam regras restritivas para si próprias e para os outros, os que são moralistas e tentam moralizar a vida dos outros. Mas ao mesmo tempo sou muito exigente. Do descritivo das minhas funções, na parte comportamental, consta 'intolerância à mediocridade'. Neste ponto cumpro a 100%. Avessa à mediocridade e à mediania.
Como, de entre estas folhas que aqui tenho ao lado, descubro os que encaixarão bem naquilo que quero nas minhas equipas?
Como saber se, em cima do que sabem fazer profissionalmente, gostam de ler, se gostam da natureza, se é gente boa onda, se são generosos para com os colegas? 


Acho que, aos que pre-seleccionar, vou pedir que me digam o nome de um poeta, vou perguntar se sabem algum poema de cor. Vou pedir que me falem num músico que apreciem. Que me recomendem um passeio. Que mostrem que sabem que há vida para além do trabalho, que mostrem que gostam da profissão e que são capazes de se focar nela sem descurarem o que há para além dela.

E eu sou assim. Não gosto de sujeitar os candidatos a testes, a situações que excluam os que não são 'normalizados'. Conheço outros métodos completamente diferentes de seleccionar pessoas mas não estou certa de qual a maneira mais infalível.

A vida é uma coisa complicada. Não há consensos. A vida constrói-se. Mas há quem, por pouca sorte ou falta de jeito, mais pareça empenhado em destruí-la. Ou então é aquilo dos acasos. O ter a sorte de encontrar alguém que acredite em nós, que nos deixe usar as asas, que nos mostre que há muitas perspectivas, pode fazer a diferença. Mas encontrarmos essa pessoa é, na maior parte das vezes, puro acaso. Eu espero que quem trabalha nas minhas equipas ache que foi uma sorte ter-se cruzado comigo. Se calhar espero demais. Mas gostava.


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Um sábado feliz a quem me lê.

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sexta-feira, março 24, 2017

De olhos completamente fechados





Terei, então, que fechar os olhos? Terei? 

Terei, então, que deixar que o azul e o verde e os pássaros venham pousar nas pálpebras que deixo correr sobre os meus olhos cansados para que o dia não venha mostrar-me a realidade cinzenta e triste?

Peço segredos e cânticos e nada recebo, peço um pássaro amarelo e macio cantando na janela ou um bicho arrogante exibinto os seus aparatos sobre o meu corpo, e nada recebo. Nada.

Peço silêncios e palavras leves como sonhos -- e nada.

Continuo rodeada por ruído e penares.

Mas não faz mal. Fecho os olhos. Sacrifico-me. 

Fecho os olhos e vejo lagos, sombras floridas, borboletas, pássaros, nenúfares. Verdes, azuis, encantos.

(Mas vem na mesma.) 

Traz-me poemas, céus estrelados, campos de trigo, aldeias maravilhando ao sol, bichos dourados, ciprestes eternos, sempervirens, céus ondulando, nuvens azuis como marés, ventos quentes, doces memórias.


Vem.

Traz nas mãos as tuas palavras mais puras, vem dizendo coisas como jardins de jasmins, rochas cobertas de limos e conchas, conta-me de abismos e paraísos.
Esconde lamentos e saudades, não me fales de lágrimas nem de mãos vazias, nunca me digas palavras duras nem da dureza que, por vezes, habita o teu coração. Não me digas porque não posso acreditar. Nem quero.
Por isso, fala-me apenas de videiras, de roseiras luzindo à luz do sul, fala-me de muros de alvenaria, de bichos dormindo ao sol, fala-me de anémonas, de mares sem fim, fala-me de pombas desenhadas em quadros que cantam a paz, fala-me de gatos e de deuses. Conta-me de ti. Conta-me mentiras.


Ou não digas nada. Deixa apenas que ouça a tua respiração.

Fecho os olhos. Fecho os olhos em silêncio, penso em poemas longínquos, palavras brancas, alvores, rios que me enleiam. Vejo montes, vulcões, ondas e nevões, planícies e pássaros, lonjuras e flores de gelo, azuis, muitos azuis, e o branco de onde tudo nasce. Ouço a tua voz que nunca ouvi, vejo o teu olhar cego que me olha sem me ver, sinto o teu corpo que me cheira como um animal vadio.

Não quero saber de nada. Quero imaginar brincadeiras, risos, patos no lago e crianças a atirarem pão, quero imaginar flores no meu cabelo, palavras brandas como carícias incertas, quero jogar às escondidas, quero ser aquela que não existe, invisível, sem nome.

Quero ser aquela que, de eyes wide shut, inventa um  olhar sonhador, um olhar louco e que, de tanto querer o silêncio, escreve palavras sem dono e logo as solta na noite.

Agarra-as, são tuas.

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Maquilhagem inspirada respectivamente em Claude Monet, Van Gogh e Katsushika Hokusai.

A música é The Sacrifice, do filme, 'O piano', da autoria de Michael Nyman

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E queiram, por favor, descer caso queiram ver o que se esconde num silêncio limpo, sem palavras

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Um silêncio limpo, sem palavras.


Tem dias que isto está assim cá para o meu lado: cansada de palavras. Parte do dia a aturar gente palavrosa. Para expressar uma ideia parva que nem devia ver a luz do dia, há gente que se enrola num palavreado sem fim, rodriguinhos fora de moda, neologismas arraçados nem sei de quê. Uma pessoa quer atalhar mas eles estão tão enlevados na sua tonitruante prosa que nem percebem que estão a cansar.

Depois outra estirpe: a dos desgraçados que, em cada pequeno contratempo, vêem um dramalhão, que chegam até nós como se estivessem a afogar-se, pedras nos bolsos, nos sapatos, na cabeça. Vai-se a ver e é caquinha de nada, coisa que se teria resolvido se, em vez de encenarem uma tragédia, tivessem falado com quem podia resolver o problema.

Chego agora aqui e há debates entre opinadores, rangélicos na sua histeria habitual, rogeiros sabichões, e mais uns e outros canastrões, gente que reconheço de outras crises, outros de que nem quero saber o nome. Toda a gente diz coisas. Palavras, ruído, poluição. Cansada. Cansada de tanta opinião.

Liguei o computador e pensei: vou ficar calada, não vou contribuir para isto. O ar que respiramos completamente saturado de palavras. Não vou contribuir. Pudesse eu e era já amanhã que me punha a caminho de alguma montanha silenciosa, casas de xisto, água cantando nas pedras, o verde das árvores, o branco da névoa, o fresco da chuva. Pudesse eu.

Infelizmente não posso.

Percorro a net. Procuro palavras límpidas como o silêncio. Rareiam. Rareiam, e tanto que delas eu agora precisava. Poemas com o mundo inteiro lá dentro mas o mundo original, antes de ser mundo. Poemas que eu lesse como se tivessem sido feitos para mim. Tanto que eu precisava deles. 

Soda Scream © Gaelle Cueff


Uma lua onde o nosso olhar pudesse dormir abraçado, uma nuvem que nos fizesse sonhar como adolescentes, uma luz ao longe brilhando como uma estrela irreal que nos fizesse desacreditar de todas as impossibilidades, um caminho perfumado por onde pudessemos passear de mão dada, um olhar receoso como quem não sabe como aventurar-se, um olhar admirado como quem reconhece que o mundo por vezes se fecha como um ninho, uma música que se intui, uma prece límpida, um alfabeto só nosso.

De coisas assim eu queria ouvir. 

Segredos.

A semente de palavras assim, palavras sem propósito, palavras generosas, essas eu gostava que aparecessem no parapeito da minha janela. Ou então um pratinho de arroz doce com um coração de canela, um pequeno ramo de alfazema, um canário amarelo a cantar, uma cartinha com uma flor lá dentro. Disso eu gostava.

Eu queria ficar tímida, com vontade de esconder o meu sorriso, eu gostava de parecer um pássaro escandaloso cheio de flores, eu queria ter vontade de enxotar um bicho atrevido que viesse jogar a língua em cima de mim, eu gostava de olhar-me ao espelho e ver-me como uma invenção, uma graça, uma mulher cheia de luz. E gostava de abrir a boca e deixar sair cantos, blues, chamamentos, confissões imorais, silêncios nunca antes ouvidos, cores indecentes, murmúrios de seda, palavras transparentes, códigos secretos.

Demain nous appartient © Gaelle Cueff

Por isso, desculpem-me mas não estou capaz de conversar.

Só isto.

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quinta-feira, março 23, 2017

O ex-Procurador-Geral Pinto Monteiro na RTP diz de sua justiça.
O que se passou em Londres e porque não falo disso.
O meu mais velho está com piolhos e o mais novo dá-se ares de galã charmoso.
O FBI está a investigar membros da campanha Trump que parece terem passado informações aos russos para estes tramarem a Hillary.
E porque é que as mulheres vivem mais que os homens.
[Ou seja, uma caldeirada fandanga à moda da Sta UJM]





Claro que as televisões estão cheias do que se passou em Londres. Os jornais também. E eu penso que pode parecer-vos insensibilidade da minha parte continuar por aqui como se nada se passasse.

Mas vou mesmo fazer de conta que estou a milhas. Primeiro porque há disto um pouco por todo o lado e, embora possa inconscientemente sentir-me mais próxima da gente que passeia em Westminter e é vitíma de uma ataque como o desta quarta-feira do que da gente que vai pelos ares num poeirento mercado de rua numa terra qualquer no Médio-Oriente, forço-me a não me esquecer do essencial: gente é gente em qualquer parte do mundo e malucos há-os por todo o lado. Segundo, porque penso que a comunicação social e as redes sociais potenciam de tal forma a histeria, o pânico e o sentimento de drama que criam a audiência ideal para quem pretende, seja lá por que motivo for, dar espectáculo. Portanto, não me interpretem mal mas não vou falar sobre o que aconteceu em Londres. Claro que lamento -- mas fico-me por aqui.


Enquanto escrevo, ouço o anterior Procurador-Geral Pinto Monteiro, na RTP 3, a falar da Justiça em Portugal. Claro que a combinação com o entrevistador é não falar de casos concretos. É o normal e percebe-se.


Sobre os mega-projectos, começou por dizer que teve muitos anos de exercício de juiz (41 anos!) e mais seis de Procurador e, portanto, é pela experiência vivida que se afirma convictamente contra os mega-processos -- porque geram ineficiêcia, porque se prolongam por anos, porque os envolvidos podem adoecer ou morrer pelo caminho, ou quem tem que falar esquece-se ou faz por isso, que é o cabo dos trabalhos um juiz ter que ler dezenas de milhares de páginas e ouvir milhares de gravações. Ou seja, dão cabo da vida de muita gente e, no fim, raramente se chega a qualquer conclusão. E, claro, in dubio pro reo.


Qual a razão para haver mega-projectos? -- pergunta o entrevistador Vítor Gonçalves

Isso advém do feitio de quem investiga - diz ele.

Prender para investigar é contra a constituição, contra a ética e, se alguma vez isso ficar provado, deveria ser objecto de processos - diz também Pinto Monteiro a propósito de haver a ideia de que, por vezes, se prende para investigar.

Sobre Francisca Van Dunen, diz que é a melhor possível para aquele lugar, inteligente, com bom gosto, elegante, educada, trabalhadora. Trabalhou com ela e gostou muito. Ninguém lhe perguntou mas, se tivesse perguntado, ele tê-la-ia recomendado a ela para Ministra da Justiça.

Enfim. Uma conversa que flui e que se ouve de gosto. Pinto Monteiro sempre me pareceu uma pessoa honrada. Uma pessoa equilibrada, sensata, serena. Dá gosto ouvir falar uma pessoa assim. 


Mas agora tenho que confessar: por razões cá minhas, tenho andado a dormir menos do que o costume. Deito-me sempre tarde e tenho tido que me levantar mais cedo. Estou perdida de sono. Queria continuar a relatar o que ele disse mas não consigo. Aliás, depois de vos ter mostrado os extraordinários gémeos noctívagos, caí num sono profundo. Agora todas as noites é isto. Depois acordo mas permaneço cheia de sono, incapaz de qualquer voo, mesmo um daqueles voos baixinhos em que gosto de me aventurar..

Nem sei se vos conte que o pimentinha mais velho, oito anos, apareceu cheio de piolhos. Praga no colégio. Ao longo dos anos, seja escola pobre ou colégio rico, a cena repete-se: volta e meia, praga de piolhos. A minha filha já lhe pôs o produto e já se pôs a rapar-lhe o cabelo. Como não quis rapar com a máquina ligada à corrente, aquilo ficou sem bateria a meio, meia cabeça rapada e outra metade cabeluda. Quando falou comigo, estava à espera que a máquina acabasse de carregar para ver se o miúdo não vai para a escola como um rapper marado. Entretanto, por via das dúvidas, também rapou o cabelo ao mais novo. Tomara que não apanhe, ele. E ela, senhora de frondosa e longa cabeleira, já se tinha lavado, escovado e sacudido e sentia comichões por todo o lado, desejavelmente apenas sugestão. Quando ela e o irmão eram pequenos lembro-me bem do terror. Já ela tinha farta cabeleira. Eu punha-a na banheira, punha-lhe o produto, penteava-a com aquele pente fininho, dava-lhe banho -- e os piolhos caíam aos molhos. Um pesadelo. O medo que eu tinha, depois, de estar no trabalho e sentir um piolho a passear-me na testa. Felizmente nunca aconteceu.


Entretanto, andámos à procura de um volante para dar ao ex-mais novo, quatro anos, que gosta de ir no banco de trás a fazer de conta que conduz. Agora usa um daqueles discos de brincar na praia. O meu marido, armado em leão, disse: 'amanhã compro-te um volante'. Sim, sim. À hora de almoço lá fomos. Nem no Toys R Us, nem no Imaginarium, nem no Continente. Depois, à noite, passámos ao plano B: chineses. Nada. Até que, numa dessas lojas, o meu marido, olhando para o alto, exclamou: 'um volante!'. Estávamos no corredor dos acessórios para automóvel. Era uma forra de pele para um volante mas, para manter a forma daquilo, estava posto numa circunferência com aros, um verdadeiro volante. Só que mole. Então comprámos um bocado de mangueira de regar e pusémo-la a rechear a forra do volante. Agora parece um volante a sério. O miúdo está desejando de o ter mas o meu marido acha que a mangueira cheira muito a plástico e, então, está a arejar na varanda. A ver se amanhã a coisa sai da quarentena e lá vamos levar-lhe.


Quanto ao mais novo, mês e picos, a minha nora costuma mandar-me, quase todos os dias, fotografias dele. Cresce a olhos vistos e ri-se com ar de homem charmoso. Deve ser da tal covinha no queixo. Agora que já está mais crescido, a covinha é notória, e penso que é por isso que já se dá ares de gajo que tem muito amor para dar, com sorrisos irónicos, malandros. 

Também tenho para contar uma coisa com piada sobre ela, seis anos. Não têm conta as vezes que olho para ela e vejo uma mini-me (mas muito mais bonita do que eu era). Mas, para contar, precisava de mais tempo. Ora isso hoje não pode ser, porque já estou a dormir. 

Também queria contar sobre a competitividade intrínseca do mais crescido, uma coisa visceral que o põe doido quando não ganha (seja o que for) ou a forma de jogar futebol do pimentinha que está quase a fazer seis anos -- mas também já não dá. Mas saibam que é o máximo. Parece que agora diz que quer ser da tropa. Não sei de onde lhe vem isso já que na família não há ninguém com essa profissão. Quer dizer, por acaso há, o meu primo general, mas daí de certeza que não vem qualquer influência. O meu marido não se espanta pois, desde que ele começou a mostrar ao que vinha, diz 'este gajo parece que é dos comandos' ou 'este gajo ainda vai ser da juve leo'. Mas logo falo disso outro dia.


Portanto, com a pancada de sono com que estou, não levem a mal que este post esteja completamente desconjuntado. Mas não consigo, mesmo, produzir coisa convenientemente estruturada. Está a sair uma autêntica sopa da pedra. Mas uma sopa da pedra de tipo janado.

Opto, pois, para não darem a visita por perdida, por vos mostrar fotografias que mostam como os homens são descuidados ou gostam de se armar em bons, nem sei. Fazem burrices que não lembram ao careca (sem ofensa para os carecas que, devo dizer, muito aprecio) e não dá para perceber se é para mostrar que são muito machões, que não têm medo de nada, se é apenas a amigdala deles que é mirradinha e os neurónios que, bem vistas as coisas, não são assim tantos quanto alguns por aí apregoam.

Obtive-as no Bored Panda justamente sob o título Why Women Live Longer Than Men. Lá em cima Ronnie Davis interpreta I Won't Cry.




E agora, antes de me retirar para os meus aposentos e enquanto me decido sobre ir ou não beber um copo de leite de amêndoa morninho, vejo este surpreendente vídeo:

Comey Says FBI Investigating Russia Interference


FBI Director James Comey is publicly confirming for the first time that the FBI is investigating Russia's efforts to interfere in the 2016 presidential election. (March 20)



Este Trump é uma anedota e o que mais surpreende é que, por lá, as acções estejam em alta e que ainda haja gente normal que o defenda. 

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E agora vou. Mas não deixem de espreitar o espantoso vídeo abaixo. Coisa do além, mesmo.

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Os extraordinários gémeos Balkin


O que é que fazem as crianças à noite? 

Supostamente dormem mas, quais brinquedos animados que, durante a noite, saem dos seus sítios para se divertirem uns com os outros, algumas crianças, quando se apanham de luz apagada, saem da cama e é o verdadeiro forrobodó. 

E sabe-se disso através das câmaras de vigilância que alguns pais colocam no quarto dos filhos. A ideia é, caso algum deles chore, poder ver o que se passa. O drama é quando, vendo a gravação da noite, os pais descobrem o impensável.

Foi o que aconteceu ao casal americano Jonathan e Susana Balkin. No dia seguinte assitiram perplexos ao que, nessa noite, se passara no quarto dos seus gémeos de 2 anos, os fantásticos Andrew e Ryan. Nada que não suspeitassem pois a meio da noite, ouvindo barulho, sempre que um deles lá ia deparava-se com um cenário surreal. Almofadas no chão, eles a cirandarem por ali, etc.


Publicado ontem, 21 de Maço, o vídeo tem feito cair o queixo a quem o vê.

Vejam com os vossos próprios olhos e rezem para que os vossos filhos, netos ou bisnetos não sejam desta raça. Eu, depois de uma cena passada aqui nesta sala, em que dormiram os 4 em colchões no chão, ao lado uns dos outros, sei bem o que foi. Acabaram todos num colchão diferente daquele em que se tinham deitado, virados ao contrário, transpirados, estafados depois de tanto rirem, tossirem, saltarem, pregarem partidas, etc.


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Até já.

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quarta-feira, março 22, 2017

O apertadinho do Dijsselbloem,
as máquinas de lavar do mastim Schäuble e o dinheiro russo,
o novo gabinete da filhinha do papai, Ivankinha Trumpinha, na Casa Branca,
o Diogo Morgado e a Joana de Verona
(e que raio se passou entre eles? e quem, afinal, vem a ser ela?)
e, no meio disto, não consegui acabar o dia com o Abel Barros Baptista nos braços.
E assim sucessivamente
.





Não vou falar daquele apertadinho que não sabe bem o que é isso de vinho e de mulheres. Como marrãozinho que quer fazer gracinha, falou do que não conhece. Pela carinha de quem comeu e não gostou ou de quem anda sempre com qualquer coisinha a tolher-lhe os movimentos, sempre lhe achei ar de quem não estava ali a trazer saúde às finanças da Europa. A pinókia e o seu láparo amestrado todos se derretiam mas eu, que sou boba, reconheci logo que aquele ali não é dos meus, àquele falta vida, falta cama desarrumada, falta escola de rua, falta tanta coisa. O homenzinho que levou uma corrida em osso nas eleições não aprendeu a lição e continua armado em coisa ruim, mostrando que, por dentro, é igual ao que é por fora: os neurónios todos enrodilhados.

Por isso, apenas lamentando que, na união europeia, os corredores do poder continuem abertos a bicheza de tão má raça, não vou dizer nada sobre o dito Dijsselbloem até porque por cá é o que não falta é gente que alinha pela mesma oratória, desde o cassândrico Oh Dr. Medina até à prima Teodora, passando pelo J.M. Fernandes, que até dá dó tanta indigência, e à desinfeliz Helena Matos que não dá uma para a caixa, e acabando no rebelde-populista escritor Meças de Carvalho (e o que me custa escrever isto; a sério que custa -- mas por todo o lado vejo afirmações dele que me deixam quase catatónica). Portanto, para que não venha algum holandês apontar-me o dedo à cara para que veja eu bem a tralha machista, azeda e fora de prazo que temos dentro de casa, deixo-me mas é ficar aqui muito caladinha.



Também podia falar do dinheiro russo que tem andado a ser lavado nos bancos alemães (e holandeses não...?) ou podia falar especificamente no Deutsche Bank, o brinquedo do mastim Schäuble, por onde parece que tem passado muito dinheirinho vivo que vai de pousio depois de ter sido colectado por gente que não se recomenda. Mas não falo nisso não vá o meu micro-ondas começar a ser usado pela Kelly Ann para me espiar para descobrir quem é que me passa a informação, ou para tirar a limpo se sei de fonte segura que, por ali (ali Deutsche Bank - atenção!), passou algum dinheiro que, na volta, ainda financiou a campanha de Trump.


Portanto, cala-te boca.


Ou podia falar de Ivanka Trump, a filhinha com quem o pai gostava de poder namorar, que agora já tem gabinete na Casa Branca. Mas não falo. Não acho nada de mais. Já que a Melania diz que está bem, está, e continua a viver a vidinha dela longe do anormal do marido, ele vai buscar um sucedâneo. Diz que a filha vai ser os seus ouvidos e olhos. E ela presta-se a isso, portanto está tudo bem. Não está mais aqui quem falou. 


(Todo o cuidado é pouco com gente paranóica. Do piorio.)


Finalmente, podia falar do romance entre o Diogo Morgado e a Joana de Verona mas não me arrisco. Primeiro, não sei quem ela é, segundo, não dá para perceber se, entre eles, apenas pintou ou se já rolou e, terceiro, aposto que Marcelo já os deve ter chamado a Belém para lhes dizer umas quantas verdades. Portanto, nem disso eu me atrevo a falar.


Um vazio, isto. Nada de que se consiga falar.

Só se for isto: fui comprar um livro para a minha mãe e, de caminho, noblesse oblige, trouxe um para mim, um que andava a namorar-me faz algum tempo. Cedi. Agora à noite, depois dos momentos poéticos e derivados, estava outra vez para me armar em intelectual mas, como agora sempre acontece, o meu intelecto diz que está bem abelha, prega-me uma rasteira e aí estou eu, de ko, a dormir o sono dos justos. Só agora é que voltei a acordar. Por isso, o Abel Barros Batista vai ter que esperar por mim. Mas eu acho que ele espera.

E assim sucessivamente.

E, confiante nisso e noutras coisas, vou pregar para outra freguesia.

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Imagens da Casa Dior.

Natalia M.King diz que I Need To See You. Ela lá sabe.

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E queiram descer, caso apreciem poesia e filosofia. Da boa.

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O bobo é sempre tão simpático que há espertos que se fazem passar por bobos.
[Não é poesia mas tem muita filosofia]



Confesso:

Gosto de bobos. Gosto de ser boba. Gosto de dizer bobagens. Gosto que me digam bobagens.

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Bobo é Chagall, que põe vaca no espaço, voando por cima das casas. É quase impossível evitar excesso de amor que o bobo provoca. É que só o bobo é capaz de excesso de amor. E só o amor faz o bobo.


[Clarice Lispector]

Das vantagens de ser bobo



Vídeo de Cine Povero sobre imagens de obras de Marc Chagall (1887-1985)

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E desçam que quiserem encontrar a vossa serenididade.

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Para sempre irreal,
para sempre obscena,
para sempre inocente
Serenidade, és minha.



Vem,  serenidade!
Vem cobrir a longa
fadiga dos homens,
este antigo desejo de nunca ser feliz



Vem, serenidade,
vem com a madrugada,
vem com os anjos de oiro que fugiram da Lua,
com as núvens que proíbem o céu,
vem com o nevoeiro.



Com as horas maiúsculas do cio,
com os músculos inchados da preguiça,
vem, serenidade!




Vem, com o perturbante mistério dos cabelos,
o riso que não é da boca nem dos dentes
mas que se espalha, inteiro,
num corpo alucinado de bandeira.


Neste Dia da Poesia.

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(Transcrevi curtos excertos da poesia que pode ser ouvida no vídeo acima da autoria do Cine Povero)

Fotografias da National Geographic a propósito da Primavera.

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terça-feira, março 21, 2017

Doidas, doidas, doidas andam as galinhas
para tirar a Caixa lá do buraquinho.
[E ainda o fatalismo da Ana Lourenço, a prostituição da Fátima Campos Ferreira (salvo seja, claro) e o apicultor na rua da minha mãe].





Não tenho novidades do Stephen Hawking. A verdade é que, mal acabei de escrever o post sobre quem parece fadado para não conseguir experimentar a felicidade, caí para o lado. Deve ter sido a profundidade do tema que me deixou arrasada.
(e eu devia agora incluir aqui um smile, três eheehehe e mais um lol para ter a certeza que todos percebem que estou a gozar -- senão ainda ficam a pensar que sou parva, como se acreditasse mesmo que aquilo que escrevi tivesse alguma profundidade). 
Adiante.

Acordei com o meu marido a levantar-se do sofá, meio a dormir, e a ir para a cama. Mas ele tem razão em estar assim pois madrugou e, antes, ainda foi fazer uma caminhada. (Não estou eu já farta de confessar que gosto de malucos?) Mas, portanto, lá acordei. Arrastei-me até aos comentários para agradecer e agora, ainda patati-patata, apeteceu-me voltar a abrir uma página em branco.

Não que tenha alguma coisa para dizer porque não tenho. 

Não tenho paciência para as cenas da CGD. Parece que fica tudo maluco quando o tema é CGD. Como é que é possível que alguém consiga gerir uma empresa, que é coisa que se rege por princípios racionais, com meio mundo a meter o bedelho? Era a mesma coisa que eu, lá no meu estaminé, fazer as contas para ver como manter lá uma cena qualquer equilibrada e saltarem-me em cima as temíveis manas Mortágua, o walking dead Láparo, a Cristas enxertada em kiwis, o Carlos César a reboque, e, pasme-se, até o ubíquo Marcelo -- todos a alvitrarem isto, aquilo e o outro. Havia de ser giro.


Está tudo mas é passado, oh caraças.


Manter um banco vivo e de boa saúde passa por geri-lo com seriedade, com sentido de inovação, e com os pés na terra (e as mãos, que se querem limpas, sempre à vista). Não passa por sujeitar cada decisão a plenário nacional. 

Se há actividade que maior reconversão sofreu e há-de ainda sofrer é a da banca. De negócio de proximidade passou, sobretudo, a negócio virtual. E isto tem que ser encarado com pragmatismo. É assim e cada vez há-de ser mais.

Claro que nas aldeias, nas vilas, em lugares de população envelhecida, isso não existe, o que existe é o balcão e a pessoa que se conhece e em quem se confia. Então não vejo pela minha mãe? Ou somos nós que tratamos de alguns assuntos pela net ou é ela que vai ter lá com a amiga da CGD. 

Só que a verdade é que não faz sentido manter um balcão em cada canto e esquina só para movimentar meia dúzia de contas e atender uma pessoa de vez em quando. Mais vale haver lojas de cidadão com pessoas disponíveis para ajudar na utilização de meios informáticos e que apoiem na consulta a saldos ou a fazer levantamentos ou depósitos.

E o que faz ainda menos sentido é esta histeria colectiva em que mergulham os políticos (de A a Z) de cada vez que o tema é Caixa.


Tirando isso não sei de mais nada. No telejornal, durante o bocado que vimos, só se falava de mortos, quer de mortos por acidente, por briga ou por doença. Depois ouvi a Ana Lourenço a perguntar sobre o aumento de capital já nem sei de quê, devia ser da CGD: 'e o que é que pode correr mal?. Parece que toda a gente se viciou na desgraça. Sobre um tema destes, um aumento de capital, a pergunta que lhe ocorreu foi aquela. Se eu estivesse lá e a pergunta me fosse dirigida acho que poria o meu ar mais sério e diria: 'pode vir uma onda maior e levá-lo' ou outra parvoíce qualquer que cheirasse a tragédia.


Mudámos logo de canal. Depois passei para a prostituição na RTP 1 mas, ou porque já estivesse com sono ou quiçá até mesmo a dormir, pareceu-me que a única que disse coisas interessantes foi a profissional do sexo. Os outros nem percebi bem quem eram. Isto do sexo ser discutido por gente que parece que nem sabe bem o que isso é nunca pode dar grande coisa. 


Depois a televisão desligou-se e, embora tenha o comando ao meu lado, não me apetece ligar. Gosto é de ver programas sobre bichos raros do fundo do mar, ou expedições a aldeias perdidas no meio de inóspitas montanhas, ou entrevistas a pianistas ou pintores. Coisas assim.

Uma coisa engraçada que tenho para contar é esta: ontem, quando estava à porta a despedir-me da minha mãe, vi um vulto do além a fazer-lhe adeus e a dizer-lhe 'tudo resolvido, já as tenho aqui comigo, vou levá-las à serra' e apontou para qualquer coisa dentro de um jeep.

A minha mãe contou-me, então, que de tarde, um vizinho tinha visto vir pelos ares uma nuvem escura, uma coisa estranha, e que essa nuvem tinha ido para dentro do quintal duma outra vizinha. A medo e já suspeitando, o vizinho foi espreitar. Eram milhares de abelhas. Por sorte, sabia de um apicultor. E era esse apicultor, todo coberto, que eu ali tinha visto. Só tinha visto antes na televisão e nunca esperaria ver um ali, na rua da minha mãe. Chapéu, máscara, colete, mangas, luvas. Achei graça a ele dizer que as tinha apanhado a todas e ia levá-las de volta para a serra. As malucas tinham vindo dar uma volta à cidade.


E agora calo-me. Tenho em carteira mais uma coisa sobre a inteligência artificial e uma coisa qualquer que me ocorra sobre casamentos porque vi umas fotografias com uns vestidos de noiva mesmo ao meu gosto e estou até capaz de fazer uma dieta que me ponha com dez quilos a menos para caber dentro de um modelito assim para depois convencer o meu marido a renovar os votos, e isto só para o ouvir disparatar, até porque isso dos votos deve ser só para quem casou por igreja, o que não foi o nosso caso, e porque ele não tem o mínimo de pachorra para essas coisas (e eu ainda menos que ele).

Mas fica para outro dia. A ver é se no dia em que estiver para virada para esses temas esotéricos não me aparece o Marcelo a opinar sobre a pessoa que querem substituir no balcão da CGD de Alguidares de Baixo, coisa que, justamente, nem a dona leal ao coelho nem a dona galinha nem as manas amazonas acharão nada bem e isto para já não falar nas pessoas que serão interpeladas na rua por uma chusma de jornalistas exorbitantes e que dirão, para as câmaras, que fulano de tal é muito boa pessoa, sorri para toda a gente e que nunca antes ninguém tinha desconfiado que batesse na avó.

Mas, pronto, partindo do princípio que isso não vai acontecer, pode ser que eu, para a próxima, arranje oportunidade para falar de temas relevantes.


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As fotografias claro que não têm nada a ver com o assunto, estão aqui só porque gosto delas. Fazem parte das selecções das Fotos do Dia do The Guardian

Lá em cima Benjamim Clementine interpreta I Won’t Complain.

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E, caso queiram conhecer três casos verídicos de quem nunca conseguiu relacionar-se bem com a felicidade, é só descerem um pouco mais.

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Felicidade.
[Ou o desperdício que é não ser feliz]





Perante a mesma situação as pessoas reagem de maneiras muito distintas, tantas que se diria estarem a viver situações igualmente distintas.

Três casos ao acaso.

Trabalhou comigo uma pessoa que, profissionalmente, vivia num tormento. Sempre soterrado debaixo das preocupações, sempre a sentir que vivia situações limite, sempre na iminência de se ver por dentro de uma tragédia. Ficava a trabalhar até tarde, quase não conseguia gozar férias. Quando se combinava um lanche a meio da tarde ou qualquer outro momento de convívio, ele nunca conseguia comparecer pois o trabalho e as urgências a tal o impediam. 

Se calhava encontrar algum conhecimento mútuo, diziam-me: ‘então, já sei, as coisas por lá estão complicadas…’. Se eu mostrava espanto, que ideia, que não, problemazecos como sempre os há, nada de mais, logo me esclareciam que tinha sido fulano de tal, muito em baixo, stressadíssimo, que tinha falado nos seus múltiplos problemas. No entanto, era só ele que via tanto drama. Não me lembro de o ver feliz.


Lembro-me de um outro. Era responsável por uma área da empresa que ele conduzia com o desvelo com que se cuida de um jardim. Tudo num brinquinho. Ali nunca nada falhava. Era muito exigente mas era o primeiro a dar o exemplo. Nunca o vi despreocupado ou feliz. Parecia sempre vencido pelo dever. Entretanto, a empresa passou por uma das várias disrupções normais nos grandes grupos. Na sequência de um processo de aquisições e fusões, ele deixou de ser o responsável pela área, passou a adjunto. Para ele esse processo foi muito doloroso. Nunca conseguiu imaginar que aquela área deixasse de ser ‘sua’. Fisicamente, estou a falar de um homem forte, estômago proeminente, rosto avermelhado. Por essa altura, ele começou a andar numa pilha de nervos. Por vezes, temíamos que explodisse. Ou implodisse. O  estado era vulcânico. 

No entanto, o que lhe aconteceu a ele aconteceu a metade dos responsáveis. De repente, ao juntarem-se duas empresas, sobrava um director de cada. Passei por isso. Como na altura eu acumulava duas áreas, perdi uma mas devo dizer que também me custou pois perdi justamente aquela de que mais gostava. Contudo, nestes processos, o que conta não é apenas o mérito até porque os novos accionistas e respectivos representantes conhecem bem é os do seu lado, não os do outro acionista. Portanto, é frequente que fiquem os directores da confiança do administrador que tem o pelouro. Aos que sobram, são arranjados outros lugares ou, querendo as pessoas sair, facilita-se a saída. Para toda a gente estes períodos são sempre conturbados e nem todos os encaram com tranquilidade. Mas ultrapassa-se, que remédio. A vida continua e não serve de rada ficar agarrado ao passado, a carpir a injustiça da decisão ou o que for. Mas este meu colega sofreu especialmente com a situação. Ele achava que o novo responsável era pouco cuidadoso, que estava a estragar o espírito de rigor que antes imperava. Assisti a discussões inacreditáveis. Perdia a cabeça, ficava possesso. O seu rosto ficava, então, verdadeiramente a ponto de rebentar, quase cor de vinho, e os olhos quase desorbitavam. As outras pessoas assistiam perplexas. Até as que antes dependam dele ficavam atónitas. Uma vez, depois de lhe ter ouvido gritos e mais gritos, encontrei-o no corredor. Já seriam umas oito da noite. Perguntei-lhe o que se passava. Quase tremia de fúria e impotência: que tanto cuidado que ele antes sempre tinha para agora ser tudo feito em cima do joelho, que, para que o resto da empresa não se apercebesse do regabofe que por ali aí, começava ele a trabalhar às sete da manhã mas que ninguém lhe agradecia, ninguém queria saber da opinião dele que, na altura de receber os louros, eram os outros que os recebiam. E quase espumava ao dizer isto. Pensei, assustada: credo, qualquer dia dá-lha alguma coisa. 


Tranquilizei-o: que, do que eu sabia, tudo estava a andar bem, que nada podia ser tão grave, que não andasse ele a dar cabo da saúde, e que deixasse de ir fazer trabalho oculto ao princípio da manhã pois, se havia problemas, ele estava a ocultá-los e, assim, ninguém os resolvia, mas que se tranquilizasse, que não trabalhasse tanto. Nem me ouviu. Perguntei-lhe se andava a vigiar a tensão arteral. Que sim, que andava altíssima, e como não?, a ter que aturar todos os dias aquele incompetente? 

No dia seguinte procurei o novo director. Era muito diferente dele mas notoriamente competente. Antes falei com os antigos subordinados. Estava toda a gente serena, não havia ali stress, o trabalho parecia correr sobre rodas. Quando falei com o chefe dele, tendo o cuidado de não relatar as enormidades que tinha ouvido, o chefe mostrou-se preocupado, que não sabia como lidar com ele, que em qualquer coisa via um problema de vida ou morte, que perdia a cabeça por ninharias, que se estava a afastar cada vez mais dos seus antigos subordinados a quem olhava, agora, quase como ‘vendidos’. Fiquei ainda mais preocupada com ele. Pensei mesmo que ele estava a dar cabo da vida e, ainda por cima, sem qualquer motivo para isso. Ou melhor, motivos de descontentamento sempre os encontramos. Mas, onde uns seguem em frente, outros afundam-se neles -- e era o caso dele. 

Mais tarde, não sei se meses ou um ano, já eu não trabalhava lá, parei uma vez numa estação de serviço. Estava na fila para pagar quando ouço o meu nome. Olhei para trás e não conheci ninguém. A voz era a dele mas não era ele. Era um homem muito magro, a roupa larga, o rosto branco. Fiquei para morrer. Tão abismal era a diferença que não fui capaz de dizer uma palavra sobre a súbita magreza. 

Perturbada, comentei, mais tarde, o encontro com um colega. Perguntou-me: ‘Então não sabe?! Está muito mal. Já nem deve durar muito. Quando se descobriu, já era tarde demais. Continua na mesma luta, a aparecer na empresa às sete da manhã, sempre a mesma labuta, vai morrer debaixo desta dupla agonia, doente e sentindo-se incompreendido, desprezado. Toda a gente lhe diz que descanse, que não se enerve, mas é mais forte que ele.’ 

Morreu pouco depois. A empresa continuou a funcionar normalmente. E eu, volta e meia, penso com tristeza no absurdo que foi aquilo: pelos vistos já estava bem doente sem o saber e naquela luta insana, e, mesmo depois de saber que estava a caminho do fim, continuou a desperdiçar, um a um, cada minuto da sua vida. 


E um outro. De todos já aqui falei antes. Também foi meu colega e, ao contrário dos restantes colegas dessa altura que era tudo boa onda, achava-se o melhor de todos. Via defeitos em tudo o que os outros faziam, e dava como exemplo o que ele fazia. Ele era o mais exigente, o mais justo, o mais avançado, o mais rigoroso, o mais tudo. Segundo ele, nós éramos os patetas alegres, os facilitistas, os que, por falta de ambição, não haveríamos de tirar o pé da lama nem de levar a empresa a lado nenhum. As pegas que tive com ele foram incontáveis. Naquela sua ânsia de conseguir economias, não se ensaiava nada de fazer cortes cegos, passando por cima de quem lhe fizesse frente. Assisti à forma desabrida como tratava as pessoas, vi a forma como massacrou alguns que se puseram a jeito até que uma vez o avisei, à frente de outras pessoas, de que, à minha frente, não voltaria a tratar assim quem quer que fosse pois, se o fizesse, estivesse ele seguro de que me levantaria da mesa e me demarcaria publicamente da forma quase selvática como queria atingir os seus propósitos. Para minha pouca sorte, numa das múltiplas reestruturações pelas quais já passei ao longo da minha vida profissional, na sequência de umas quantas demissões, eis que ele, falcão exemplar, é repescado para a administração e eu, entre outros directores, ficamos a depender dele. Foi dos períodos complicados da minha vida. Ele via-se como sempre se tinha visto: o maior, o melhor, e eu era aquela que a levava na boazinha, amiga da classe operária, defensora dos desvalidos. Guerras que só visto. Queria educar-me. Ora com quem ele se foi meter. Também destratou outros colegas meus mas os homens têm um medo intrínseco: o de que, se avançarem, podem, na sequência disso, ter que partir para o passo seguinte que, na opinião deles, só pode ser um de dois: ou ir às trombas ao outro ou demitirem-se. Portanto, por via das dúvidas, geralmente engolem em seco. Eu não. Vocês já sabem alguma coisa de mim. Dificilmente me fico, especialmente se achar que o outro não tem razão. Portanto, era taco a taco. Quando ele, num dia de guerra a sério, me sugeriu que eu me demitisse, respondi-lhe que não o faria e que o mais provável é que fosse ele a ir ao ar antes de mim. 

Talvez por ser público que aquilo entre nós não ia a lado nenhum, houve nova reatribuição de pelouros e deixei de trabalhar com ele. Aí, estranhamente, reaproximou-se, mudou, e ficámos a dar-nos até bem. Mas continuou a infernizar a vida aos outros. Pouco depois, nova reviravolta e a administração foi destituída. Acabou mesmo por ‘ir ao ar’, ele. Andou um bocado aos papéis mas, por ser pessoa válida, logo foi administrar outra empresa, felizmente longe de mim. Aí voltou a usar a sua filosofia de vida, de que quase todos os outros eram uns relapsos, uns improdutivos, que ele é que era bom, inteligente e sensato. Inventou maneiras para controlar a produtividade das pessoas, arranjou maneiras de introduzir novos métodos nem sei de quê. Como sempre, estava ele de um lado, ele o bom, o eficiente, o exemplar e do outro lado da barricada o resto do mundo. Os inimigos não se lhe fizeram esperar e tenho ideia de que alguns lhe moveram, mesmo, processos.


Pessoalmente era pessoa civilizada, embora parecendo sempre 'em serviço', como se não pudesse dar-se ao luxo de ser feliz, tantas as ralações. Conheci-lhe a mulher que era bastante querida. Presumo que ele a tenha educado tal como educou os filhos, tal como tentava educar toda a gente à sua volta. 

Um dia, um outro colega ligou-me. Não tinha eu sabido? Eu, que não. Pelas notícias? Eu, não. Agressão violenta à porta de casa, ninguém sabia quem é que o tinha agredido daquela forma, coisa muita feia, e ele em coma, dificilmente escaparia. Ficamos todos em estado de choque. Meses de coma. Escapou mas, claro, não voltou a ser a mesma pessoa. Não sei se ele tem memória de como desperdiçou a vida enquanto tinha qualidade de vida. Pensará algumas vezes no absurdo que tinha sido aquilo de tentar educar toda a gente, achando-se melhor que todos? Naquele afã, nunca lhe vi vestígios de felicidade.

Três exemplos. Podia dar mais uma mão cheia deles. Pessoas que, vá lá saber-se porquê, parece que não percebem que estão a desperdiçar a vida. 

A sensação que tenho é que que se esquecem da sua natureza animal. Parece que acham que vieram a este mundo com uma missão. Ou parece que se esquecem que é da natureza animal arranjar saída para as dificuldades que aparecem. E que se vive para viver e para mais nada. E que de nada servirá estar vivo se for para andar a fazer-se de morto. Tem que ir à caça e não tem cão? Pois cace com gato. Era apaixonada pelo maridão e o maridão cansou-se de tanto amor? Pois azarinho -- e o que não falta são outros homens (e, ainda por cima, estão sempre a nascer, como me disso no outro dia uma que ficou viúva). Ficou sem trabalho? É horrível mas há que dar a volta, fazer outra coisa, outra coisa qualquer. Teve que se desfazer da casa? Pois é, uma grande desgraça, mas que se procure outra mais pequena, mais longe, mais barata -- e melhores dias virão. Está doente? Então força, isso há-de passar, e haja descanso, afecto, pensamento positivo e, sobretudo, vontade de seguir em frente porque para a frente é que é caminho. E não é nada de muito dramático mas não tem dinheiro para cinemas, restaurantes? É pena mas passear à beira-rio ou no parque não custa dinheiro, ir a uma biblioteca não custa dinheiro, ir ouvir música de rua não custa dinheiro e pode apanhar-se sol e ver outras pessoas. 

O que é a felicidade? 

Para mim é isto. É ir em frente, é procurar estar bem, é aceitar o que acontece e, se não for bom, tentar dar a volta por cima, é ir à luta, é encarar a vida com optimismo, é gostar de dar e receber, é não consumir energias a maçar os outros, é gostar de rir, é procurar o riso, é dar valor às pequenas coisas, é gostar do que se tem, é gostar de estar vivo. Não é nada de especial -- mas é bom.


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Lá em cima é uma menina de 14 anos, sem braços, abandonada pelos pais, a cantar e a tocar piano no Got Talent da Roménia neste domingo. Parece feliz.

As fotografias foram feitas no Ginjal, lugar que tem o condão de pôr sempre ainda mais feliz.

E agora vou espreitar uma biografia de Stephen Hawking que é outro que tal, sempre com ar de quem a sabe levar na boa.

Se alguma coisa ali me cair no goto, conto-vos.

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segunda-feira, março 20, 2017

Dia de bailarico no Um Jeito Manso
Tudo para a pista:
-- cuidados dermatológicos para dias de sol, a ascendência e a idade de Trump, as crise e os limites dos matrimónios, acidentes de viação e senhoras atenciosas, uma chinesa a falar inglês e um poli-casamento.
Que comece a dança.


Depois de As regras da sensatez do post abaixo -- no qual o Rui Veloso me acompanha enquanto eu esclareço uns pontinhos a propósito da insensatez que me caracteriza (na opinião de Leitor/a em comentário abaixo) -- permitam que me deixe ficar por aqui, na risonha preguiçota. Já concluí os meus deveres e afazeres e daqui a nada inicia-se nova faina pelo que acho que a folga me é devida.

Folguemos então. 

E, se a partir de agora, tudo o que se poderá ver são cenas que os meus Leitores, sabendo-me a ganda maluca que tão bem conheceis, me enviam, já o vídeo musical que vos acompanhará é escolha minha. É Alice Francis em St. James Ballroom. Ah, sim, as duas imagens animadas ali em baixo também foram escolha minha (tenho, entre outras virtudes, este meu lado kitsch, gosto de enfeites).


Que comece, então, o bailarico.

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1. A crise dos 10 anos



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2. O santíssimo matrimónio e alguns dos seus limites



Depois de meio século de matrimónio, ele morreu e foi para o céu. Pouco tempo depois, também ela morreu e foi igualmente para o céu.

No céu, encontra o marido e corre rapidamente para ele, exclamando:

     -  Queriiiiiidoooooo! Que bom encontrar-te!

Resposta pronta dele:

     - Não me lixes Fernanda! O contrato era muito claro: "até que a morte nos separe".



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3. Cuidados a ter com a pele do nariz. Proteja-a, o sol é perigoso.



[Um conselho destinado a Leitores-homens ou a Leitoras (estas para que não esqueçam que, na praia, deverão fazer a caridade quando um cavalheiro com pele do nariz sensível lhes pedir um bocadinho de sombra)]



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4. Um acidente com um carrinho de golf



Enquanto fazia golf, um cavalheiro já com alguma idade, acidentalmente capotou o seu carro de golf. Uma atraente jovem, também jogadora de golfe e que vivia numa das residências do campo, ouviu o barulho e foi lá perguntar:

-- Está tudo bem?

-- Está tudo, obrigado -- disse ele enquanto se torcia para conseguir sair de baixo do carro virado.

Ela ofereceu-se:

 -- Venha à minha casa, descanse e depois logo venho ajudá-lo a levantar o carro.

O cavalheiro reparou que o roupão de sede estava entreaberto, deixando antever um belo físico.

 -- É muito simpático da sua parte mas acho que a minha mulher não ia achar piada nenhuma a isso.

 -- Ah, deixe-se disso.

E era tão bonita e tão, tão persuasiva, que ele, tão fraco, finalmente acedeu:

 -- Pronto, está bem.

Depois de uns quantos copos, ele agradeceu e disse:

 -- Já me sinto bem melhor. Mas sei que a minha mulher vai ficar mesmo furiosa comigo. Por isso, não leve a mal mas é melhor eu ir andando.

 -- Não seja chato! - disse ela com um sorriso, deixando que o roupão se abrisse mais. Deixe-se ficar mais um bocadinho. Ela não vai saber de nada. A propósito, onde é que ela está?

 -- Ainda debaixo do carro, suponho eu - disse ele.

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5. Trump tem para cima de uns 500 anos e é português. A prova está nos Jerónimos. 




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6. O inglês de uma chinesa



Numa agência de viagens em Xangai, perguntei à menina chinesa atrás do balcão se ela poderia escoltar-me num city tour e pedi-lhe o número do telemóvel para poder contactá-la. Ela fez um grande sorriso, assentiu com a cabeça e disse:

 -- Sex sex sex, wan free sex for tonight.

Eu respondi:

 -- Uau, vocês, mulheres chinesas, são realmente hospitaleiras!

Um tipo ao meu lado tocou no meu ombro e disse:

 -- O que ela realmente disse foi: 666136429.



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E, de brinde -- e, sobretudo, como agradecimento aos Leitores que me enviam literatura tão variada -- um presentinho da vossa UJM.


Os Monty Phyton -- e um casamento socialmente incorrecto



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E queiram, por favor, descer e ler uma acusação e a minha defesa defesa para melhor ajuizarem:
(Já para não falar de impúdica...)

Vá, sejam simpáticos, digam que nunca viram ninguém tão sensato, ninguém tão, tão, ajuizado, um modelo de perfeição, capaz até de ser canonizada muito em breve -- e não se fala mais nisso, ok?

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As regras da sensatez




Porque não é a primeira vez que recebo comentários como o que alguém deixou na mensagem abaixo e porque é tema que gosto de deixar claro, tomo a liberdade de o puxar para aqui para, de seguida, dizer de minha justiça.

O comentário é este:
Não é sensato exibir uma vida fácil e grandes alegrias. Há nisso algum despudor. E é ingenuidade acreditar que alguém pode encontrar o que não tem na leitura do que outra pessoa tem. Mas é apenas uma opinião, claro. Se lhe dá prazer manter este registo, mantenha-o.
Tenho alguma dificuldade em ajuizar sobre a sensatez de pessoas que desconheço mas admito que quem o disse, por ler o que aqui escrevo, ache que já me conhece o suficiente. Portanto, passo por cima do argumento do (des)conhecimento e refiro um outro aspecto que esse, sim, me parece mais relevante: o da subjectividade.

Quem assim decreta a minha insensatez acha que detém a bitola da sensatez. Ora, duvido que a tenha. Mais: duvido que alguém a tenha. É que estamos no domínio da pura subjectividade.

Exemplifico. Eu acho que alegria e o prazer de viver são matéria pública enquanto acho que a dor e o sofrimentos são matéria reservada. Portanto, fico até admirada com a falta de reserva ou pudor com que algumas pessoas publicam dores tão íntimas. Não que vá ao ponto de as achar insensatas. Longe disso. Fico é a pensar que a dor deve ser tão grande que o pudor, para elas, deixa de ser relevante. Mas, salvo casos extremos, nunca me ocorre achá-las insensatas.


Como qualquer pessoa, tenho os meus momentos complicados, tenho cansaços, preocupações, tristezas. Contudo, quando as causas são coisas cá minhas, geralmente apenas falo a posteriori, com algum distanciamento, e sem grandes pormenores. Muitas outras vezes, tantas vezes, nem toco no assunto. Como já o contei, escrevi aqui -- na maior animação -- na véspera de ser internada, escrevi aqui sobre política e fait-divers de toda a espécie durante o doloroso pós-operatório, escrevi sobre ninharias quando me morreram pessoas muito próximas, escrevi histórias e maluqueiras debaixo de grandes preocupações. E quem diz isso, diz em tantas outras situações, em que acho que nem vem ao caso falar, em que ninguém deu por nada. Geralmente, guardo para mim os assuntos que me pesam. Em situações difíceis prefiro espantar as dificuldades em vez de me debruçar sobre elas. Por natureza, facilmente ponho para trás das costas o que me desagrada nem que apenas por uns instantes, para 'desopilar'. Mas há uma outra razão: de facto, sinto um certo pudor em exibir assuntos íntimos, dores, mágoas.

Mais: penso que falar sobre alegrias não faz mal a ninguém, enquanto falar sobre dores e angústias pode tornar-se contagioso, pode dar más ideias, pode fazer baixar ainda mais o ânimo de quem esteja a sofrer.

Eu sei que os portugueses, em geral, tendem a cultivar a baixa auto-estima e a sentir-se solidários com os que se mostram em baixo e a rejeitar os que se mostram afirmativos ou 'felizes da vida' ou, seja, os que gostam de rir e curtir os prazeres desta vida.


Mas eu não posso fazer nada contra isso. Sou sincera e não vou fingir que sou infeliz para agradar a quem tem uma vida difícil. Tenho sido afortunada e por isso me sinto agradecida. São factos de que não tenho que me envergonhar: não tenho dificuldades financeiras, nunca fui abandonada, tenho trabalho, adoro a minha família e sinto-me retribuída. Por isso, sendo esta a minha realidade, é sobre ela que falo. Não sinto pudor ao reconhecê-lo, sinto apenas alegria e, sobretudo, um grande agradecimento. 

Quanto a ser ingenuidade acreditar que alguém pode encontrar o que não tem na leitura de outra pessoa que tem, permita que diga que talvez não seja bem assim. Não têm conta os mails que recebo de pessoas que me contam os seus problemas, as suas dificuldades, as suas doenças e ansiedades dizendo-me que lhes faz bem ler o que escrevo. Por alguma curiosa razão, muitos Leitores preferem dirigir-se-me num tom pessoal, de confidência, através de mails. Penitencio-me por cada mail a que não consigo dar a devida atenção mas o meu tempo livre é muito curto, não chega para manter a proximidade que eu gostava de ter com quem assim me procura e, ao mesmo tempo, manter o ritmo a que me habituei aqui no blog. Tantas vezes aqui tenho apresentado desculpas por não conseguir responder a mails (ou a comentários).

Portanto, para finalizar: vou manter este registo, sim, e não é apenas por me dar prazer: é porque este é o meu registo. Sou como sou e não é aqui que me vou pôr com fingimentos ou dissimulações.

E é no mesmo registo, o de sinceridade, que digo a quem escreveu aquele comentário -- que agradeço -- que espero que a vida lhe sorria para que sinta também vontade de sorrir e para que fique feliz quando vir o sorriso no rosto ou nas palavras dos outros.

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Lá em cima Rui Veloso canta 'As regras da sensatez', canção de que muito gosto, até pela letra (que é de Carlos Tê).

As fotografias foram feitas no Ginjal, lugar onde uns apenas vêem decadência e onde eu, impudicamente, vejo uma beleza quase mágica.

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