Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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quarta-feira, junho 28, 2017

The taste for the beautiful
-- já lá dizia Darwin que a sabia toda





Tal como previsto, a manhã logo a rasgar.
(Não sei bem em que circunstâncias se usa a expressão 'a rasgar' mas, no contexto, parece-me apropriada). 
À hora de almoço saí a estalar, o gps em acção que o destino era vagamente diferente do habitual e não podia arriscar-me a andar perdida: fui ver a festa de fim de ano lectivo do meu mais crescido que não foi na escola mas noutras instalações. Espigado, compenetrado e a desempenhar na perfeição o que era esperado dele, o orgulho e amor que senti justificaram o dia.

Foi ele que inventou o nome pelo qual hoje todos os meninos me chamam.
Ele, bebé, dizia o monossílabo e a minha filha um dia disse: eu acho que ele te está a chamar, que é o nome que ele te dá, porque só o ouço dizer isto quando estás cá em casa. Não acreditei. Era apenas um som dito e repetido por um bebé. Afinal o tempo provou que sim. Todo ele se ria e batia os pezinhos e os bracinhos, repetindo o que viria a tornar-se o meu segundo nome. Meu menino mais lindo. 
Lembro-me tão bem quando ele nasceu. Eu no hospital, tensa, à espera. Depois, quando se resolveu, o pai da criança saíu, orgulhoso, e veio dizer que estava bem; e, logo a seguir, a médica veio ao berçário mostrar o bebé. E eu tive uma crise de alegria completamente fora de controlo. O meu marido estava a trabalhar. Liguei-lhe para lhe dar a boa nova. Queria dizer-lhe 'Já és avô'. Mas a emoção era tanta que, numa daquelas saídas bruscas de vapor que acompanham a descompressão, comecei a ficar com a voz embargada. Queria falar e não conseguia. Depois as lágrimas a rolarem. E ele 'Então? Já nasceu?' e eu queria começar a falar e não conseguia. Por fim, ao esforçar-me, ele percebeu que eu estava a chorar. Já aflito: 'Mas que foi? Aconteceu alguma coisa?' e eu pensava, caraças, que estupidez, estou a assustá-lo, e queria dizer aquela coisa tão simples 'Já és avô' e só chorava. Ele enervado 'Fala. O que foi? O que é que aconteceu? Diz.' Tive que fazer um esforço de superação, superação da parvoíce aguda, e tenho ideia que desisi de dizer a fórmula mágica e que me limitei a dizer, num sufoco, que já tinha nascido e estava tudo bem.
Mas, portanto, tanta alegria. Depois, quando ela saíu da sala de partos, sorridente, com a sua cria junto a si, foi outra vez a emoção à solta: ver a minha filha tão feliz, tão realizada, ver aquele bebé filho dela, foi maior felicidade do que quando a tive a ela. Entretanto, já passei por este estado de felicidade absoluta mais umas quantas vezes. Uma emoção penta-vivida. De cada vez, sempre a alegria da primeira vez. Cada um deles único, o primeiro, o meu amorzinho mais lindo.

Mas continuando: de tarde. E mais uma tarde de estalão. Coisas, coisas, coisas. Até um mail em que um artista me dizia que uma certa coisa já hesistia. Li aquilo, encolhida, arrepiada, aterrada. Pensei: ninguém merece. Depois, la está, descomprimi e dei uma valente gargalhada.

Ai que mundo diverso -- e por vezes desvairado -- que me traz, no mesmo dia, tantas emoções contraditórias.

Depois, ao fim do dia, caminhada. Passeio, conversa solta, descanso mental. Depois, fazer o jantar (pescadinha de anzol, batata doce que não comi porque ainda persisto na dieta, cenoura, feijão verde, cebola, ovo cozido) ... e, mais tarde, ao chegar à sala e, mais concretamente ao sofá, pimba. Caída a dormir. Que nem uma pedra. Ando mesmo estafada. 

Quando acordei, dei uma volta pelas notícias e a única que me interessou foi uma sobre o que nos diz a forma como as fêmeas escolhem os machos com quem querem fazer sexo. Vi isto não num site pornográfico mas na National Geographic. Aí encontrei aquela bela expressão que Drawin usou: the taste for the beautiful. Essa ideia, que Darwin plasmou em palavras depois das suas observações, tem sido comprovada por várias gerações de cientistas. E é uma ideia que me é cara.


Também para mim, e *os feios que me desculpem, mas beleza é fundamental.


Se eu quiser definir a beleza neste contexto, e pensando nos homens que ao longo dos anos tenho achado atraentes e, em particular, naquele que me prendeu e que, desde há muitos anos, me traz presa (mas, calma, presa não pela trela mas pela liberdade), penso que talvez mais do que uma beleza clássica, perfeita, o que a mim mais me atrai é achar que será um bom parceiro sexual, é olhar e ver que ali está um homem capaz de uma boa pegada. Um bom reprodutor, portanto. E, portanto, com esta conclusão, percebo que, mais do que um ser racional, sou um simples ser animal, tentando garantir o prolongamento da carga genética, propagando-o através da descendência.

O meu marido que lê o que escrevo, chega a este ponto e deve achar normal que eu diga isto pois está farto de saber que é isto que penso (ou melhor dizendo... de mim já espera tudo). Os meus filhos, que também lêem, também já não devem estranhar mas talvez tenham dificuldade em ver os pais como uns meros animais reprodutores. Mas somos. É o que somos. De nós dois já nasceram eles os dois e deles os dois já nasceram mais cinco pessoas. 


Dito isto, até parece que nesta escolha não há lugar para o romance. Mas há. Envolve-se o desejo básico, primordial, em sedução, jogo de olhares, jogo de palavras, envolve-se isso tudo em afecto, em compreensão --- e o romance está feito. Vai-se juntando tudo isso (e quantos mais ingredientes se juntam, maior será a animação) até a coisa ficar respeitável e duradoura. Mas é pela atracção sexual que tudo começa. Pelo menos, comigo é.

Já contei tantas vezes que já toda a gente deve saber de cor. Quando vi o meu marido e o achei altamente apetecível não sabia quem ele era nem como era. E, no entanto, pus o meu namoro da altura em risco e mostrei-me, sem pudor, apaixonada e disposta ao que fosse preciso, porque, no meu íntimo, sabia que não descansaria enquanto não o tivesse nos meus braços. Calhou bem que veio a revelar-se mais do que um belo corpo, mais que um belo rosto, mais do que uma bela maneira de andar. Mas foi sorte. E por isso tem perdurado. 

E o que me encanta em tudo isto é pensar que pelo meu estouvamento, que me levou a seduzir e a deixar-me seduzir pelo rapaz mais bonito da faculdade quando namorava firme um outro, resultou esta família de que gosto tanto, filhos felizes que têm também famílias felizes. Fosse eu a menina ajuizada que supostamente deveria ter sido, e poderia ter constituido também uma família, mas não era esta e eu, hoje, parece que só sou eu porque os tenho a eles.


Bem.

Está aqui a querer parecer-me que a conversa vai meio maluca. Isto é do sono. Fico desestruturada das ideias. Daqui a nada tenho que estar a pé e não consigo puxar pela cabeça para falar de coisas mais espertas. Ainda por cima o supra citado artigo tinha pano para mangas (o facto de serem as fêmeas a escolher e os machos terem que andar a bandear-se junto delas a ver se lhes caem no goto, a cena diferenciadora do pato, etc,) mas o meu estado de depauperação anímica leva-me a ter que fazer ouvidos moucos aos apelos e a ter que me deixar ficar por aqui. Mais há mais dias.

Lembrei-me de trazer ao texto algumas pinturas com beijos (Toulouse-Lautrec, Chagall, Magritte, Klimt e Jean-Léon Gérôme) e, depois de o ter lá em cima em Eu não existo sem você, numa composição com Tom Jobim e com a voz da Maria Bethânia, vou terminar outra vez com aquele* poema de Vinicius:

Receita de mulher, escrito e dito por Vinicius de Moraes




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E saibam que gosto de vos ter aí desse lado. 

Desejo-vos a todos um dia muito feliz.

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terça-feira, junho 27, 2017

Há gente que parece que ainda não aprendeu que, em dias que teimam em ser segunda-feira, é mais prudente que alguma distância seja guardada.
Caraças.

[E uma ou outra inconveniência infantil -- não minha mas de um descentente meu]

(E, sobre a última jericada do láparo, um único conselho: tenha cuidado para não adormecer desprevenido porque gatos é o que há mais por aí)




Só mesmo para dizer que tem dias em que odeio as segunda-feiras. Pior ainda se for Verão, estiver fartinha de muita coisa e vierem querer que eu tenha paciência. E se, para ajudar à festa, quiserem remoer, remoer, remoer, conversa que parece de bubas que não se cansam de repisar. E eu, a ranger mentalmente os dentes, capaz de virar a mesa, e do outro lado que não estão a perceber -- e toma lá com mais cinquenta dúvidas -- e eu, já nos meus limites, a querer abreviar tamanha impresciência; mas eles que não, que não estão confortáveis com a explicação, e eu nas tintas, mas nas tintas, caraças, para o desconforto deles, que se vão confortar ou desconfortar para casa da prima que eu quero lá saber disso. E eu a sentir que mais um pestanejar deles e o caldo fica completamente entornado e eles sem perceberem o risco que estão a correr.

Em dias assim, ao começar, eu rogo para que ninguém me dirija a palavra. Rogo assim: afasta de mim o género humano, afasta. Entro, cumprimento e sigo não vá alguém querer fazer simpatia. Enfio-me no gabinete e espero que ninguém se aperceba da minha existência. Ansiando que haja um simulacro e toda a gente se evacue do edifício para fora, aguardo que a costa esteja livre para ir buscar um café. Mas há quem se arrisque -- ainda antes que eu, ao menos, disfarce a matinal e natural antipatia com a cafeína -- e meta a cabeça à porta. Como andei na catequese, guardo o ensinamento de que não devo fechar a porta deixando a cabeça de um lado e o corpo do outro; ou seja, facilito -- mas nem encaro. Continuo a olhar o computador esperando que o aventureiro perceba que está em risco e bata em retirada. Mas há os afoitos. A esses não consigo disfarçar e fingir que quero tratar bem. Pior, ainda, se me enfrentarem e fizerem ar de quem não está para sair dali sem uma resposta. Não corre bem e, para além da paga na hora, não escapam de vingança retardada. Não levo afronta para casa, em especial em dias de segunda-feira aguda.


Mas a coisa pode sempre ser pior. Se eu, ao almoço, puder espairecer, pode ser que, na parte da tarde, possam cruzar-se comigo sem correrem sérios e generalizados riscos. Agora quando algum desinfeliz envia invite para logo a seguir ao almoço, sem me dar tempo livre para esvaziar a bilís, aí, então, a coisa transcende. É muito mau. Almoçar a correr, atravessar a cidade a correr e, ao chegar ao meeting, em vez de dar de frente com uma mesa vazia, encontrar a sala cheia e gente motivada, cheia de questões -- é do pior. Mau. Muito mau, mesmo. Gente motivada em dias destes é coisa insuportável. Em dias assim. o mais que suporto é que me façam adeus de longe. Mas não. A tarde toda. Até às quinhentas. E logo ali, tanta a motivação, um plano de acção. E eu a espumar, cada minuto seguinte da minha existência logo ali a ser planeado, como se eu suportasse tal afronta. Coisa horrorosa, tudo. Trabalhar, aturar gente de manhã à noite, e não ter um minuto para respirar entre cada picada de melga. Uma violência. Tento não mostrar, guardar-me, tentar ficar na moita. Ou seja: mal abro a boca e, quando abro, é para mostrar que não sou das que ladram, que é melhor fugirem logo. Mas não. Arriscam-se muito. 

Do pior. E não estou a contar nada. Não gosto de carpir. 

Terça-feira outro dia de cão em perspectiva. De tarde, lá, na mesa cheia -- eu a guardar a fúria para altura mais oportuna, para quando puder atirar-me directamente à jugular -- o telefone sem som, só a reluzir e a estremecer, as chamadas e as sms a chegarem. E eu, de olhos semi cerrados, varada, a fingir que não via. Não se aguenta tamanho assédio em dia de segunda-feira. Depois mails e mais invites. Portanto, terça-feira vai começar-me o dia igualzinho a segunda. Acho que vou escrever uma faixa e colar na testa: Já chega de projectos, desafios ou trabalhos urgentes, críticos ou interessantes. Abaixo os e as melgas. Tragam-me massagistas, preparadores de sumos tropicais, tragam-me piscinas portáteis, trovadores, podologistas, osteopatas, cabeleireiros. Até rompo e dieta e aceito pasteleiros. Qualquer coisa. Tudo menos executivos motivados. Isso é que, por favor, não.

Mas não tenho essa sorte. Portanto, depois de um massacrante dia que transpirou segunda-feira por todos os poros, já aí está outro em perspectiva. Um cansaço. Não se aguenta.


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Um Post Scriptum infantil para acabar em beleza a ver se regresso ao espírito de domingo



No domingo, à mesa da festa de anos do bisa, todos conversavam e, na altura, deitaram-se a adivinhar a idade da bisa. Às tantas falaram da outra avó de um deles e pergunta o de quatro anos e que era o mais novo antes do bebé nascer: Mas essa ainda é real? 

Espanto geral. Real? Mas como real?

E ele: Se ainda existe...

Logo todos: Rapaz... Disparate. Claro que existe. Está viva, queres tu dizer. Que coisa, rapaz...

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E, um bocado depois, para a bisa: Porque é que tens assim essas peles no pescoço?

E o pai, logo atalhando: Este gajo... sempre inconveniente. E puxou-o, fazendo com que a criança desse uma cabeçada na porta.

Veio a bisa, contemporizadora: Deixa-o lá. Quer perceber. Faz muito bem. Olha, a avó explica: as pessoas mais velhas têm a pele assim, assim como os perús, estás a ver?

E ele, circunspecto: E também ficam com o nariz assim como o dos perús? E fez o gesto de nariz pendurado.

E a bisa: Ai... isso espero que não, credo....




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Quanto à última jericada do láparo, nada a dizer. Aliás: nada a fazer. Dali nunca há-de nascer nenhum pinto ou ideia luminosa. Só boutades e papagaiadas mal vertidas para conversa de gente normal. Desta vez a coisa saíu-lhe pior mas quantas têm passado despercebidas só porque não são tão chocantes....?

A única coisa a fazer é esperar que adormeça e que, enquanto isso, os outros lhe passem a perna. Ou pode ser que adormeça desprevenido e venha o gato. 


Temos pena.

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[Ilustrações de Norman Rockwell.
Antes, fotografias feitas in heaven]

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Mas pronto. Para isto hoje não ser só prosa vagabunda, remato com um pouco de poesia e uma que, como convém, tem uma mensagem. E com tanto mais significado quanto é dirigida, entre outros, a um coelho. Não que o tema do poema tenha a ver com a toca infeliz em que o nosso tão bem conhecido láparo fez questão de se enfiar a propósito dos incêndios mas, enfim, também não se pode ter tudo.


"A Cursory Nursery Tale" de Ogden Nash (lido por Tom O'Bedlam)



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E uma boa terça-feira a todos
(e que a minha não me chegue com laivos de segunda-feira, pleeeeaasseeee)

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segunda-feira, junho 26, 2017

Construir uma ilha, viver em liberdade



Regressada à cidade depois de um bem vivido fim de semana no campo, e passando, no regresso, por mais uma festa de anos na qual estive rodeada por risos, carinho, doçuras e diabruras, tive, à chegada a casa, naturalmente, uma série de deveres a cumprir -- que isto de me entregar à vida como uma boa selvagem, sem horários nem compromissos, é coisa que, apesar de me ser cara, nunca consegue durar mais do que umas escassas vinte e quatro horas e é quando é.

A semana de trabalho está a recomeçar e, nesta altura do ano, o corpo a pedir descanso e a impaciência a dar mostras de estar sempre à espreita, é sempre com algum esforço que deixo para trás os meus horários desordeiros e os meus hábitos desalinhados para entrar num mundo em que os desvios à normalidade não são bem aceites.


Andar descalça em casa e na rua, ler ou escrever pela noite dentro, andar a apanhar orégãos ou alecrim sentindo o sol a pousar suavemente na pele de todo o corpo, andar em silêncio a espiar gatinhos no mato quando a noite cai ou coisas assim, que fazem a minha felicidade, terão que ser substuídas pela vivência asséptica num escritório, e eu terei que me entregar com uma energia na qual agora me custa a acreditar à análise de resultados de empresas, à partilha na tomada de decisões relativas a negócios e a outras ocupações que são também parte da minha vida.

Quem, durante a semana, me vê de saltos bem altos, maquilhada e perfumada, integrada naquele ambiente, não imaginará talvez que sou outra, completamente outra, quando posso estar à solta, em contacto com a natureza, entregue apenas à concretização das minhas vontades. E, no entanto, é também com naturalidade e motivação, que exerço a minha profissão. Portanto, jamais saberei se seria feliz se a minha vida tivesse seguido um rumo completamente diferente. Se vivesse uma vida alternativa -- sem patrões, sem estar integrada numa organização estruturada em hierarquias, sem horários que não os que eu própria me definisse -- sentir-me-ia igualmente realizada? Não sei.


Conheço uma pessoa que é investigadora e que se organizou para trabalhar a maior parte do tempo a partir de casa. Os tradutores podem também fazê-lo. Um colega do meu filho, investigador também, coisa que lhe dá margem de liberdade, dedica-se, em paralelo, à agricultura. Uma amiga da minha filha, designer, lançou uma linha de roupa para criança e agora gere o seu próprio negócio, com costureiras, a partir de casa. Quando penso neles, penso que dispôem de uma liberdade que desconheço. Mas não sei se isso seria, para mim, garantia de plenitude.

Não sei. Apenas poderei dizê-lo quando me reformar. Aí verei se me entrego ao dolce fare niente e a ser uma boa selvagem, se arranjo mil e uma ocupações alternativas (e tenho umas ideias peregrinas em mente), ao voluntariado, à política, se vou viajar pelo mundo. Ou o quê.

Seja como for, sabe-me bem observar formas de vida alternativas, à margem, no limiar da liberdade total.


Esta noite não me apeteceu acabar já o meu folhetim, parece que fico sempre com alguma pena de me despedir dos personagens que me nascem. Era para escrever o último episódio, tinha que ver que nome lhe ia dar -- comecei por pensar num nome que obviamente não podia ser, depois pensei chamá-lo 'Memórias de L.' e agora estou inclinada para lhe chamar 'L., aquela a quem um dia alguém chamou la femme infidèle'. Mas essa da femme infidèle aconteceu comigo, a mim é que uma pessoa, o vice presidente de importante multinacional, um francês enorme e intimidatório apesar de imensamente charmoso, num dia de fúria, chamou isso e assim passou a chamar mesmo quando a fúria lhe passou. As suas chamadas, de Paris, começavam sempre com essa, o meu nome seguido de la femme infidèle. Mas como eu sou uma e a Lu -- tal como antes a Diana ou a Ana ou a Eva ou a Lídia ou todas as mulheres das minhas histórias -- são outras que não eu, talvez seja melhor não fazer misturas.

Mas, portanto, dizia eu, não me apeteceu pôr já hoje um fim à história. E, assim sendo, depois de ter adormecido e acordado, pus-me a ver as fotografias que fiz no fim de semana -- das quais volto, agora, a partilhar algumas -- e, a seguir, entretive-me a ver alguns vídeos que têm a ver com diferentes formas de viver. 


O vídeo que agora partilho convosco, o terceiro de hoje, é outro que acho fantástico. Catherine King e Wayne Adams, um casal de artistas, resolveram, na margem de um rio que fica a cerca de 45 minutos da cidade mais próxima, construir uma ilha. Vivem numa casa feita à mão por eles, sobre uma ilha feita à mão por eles. E há um estrado para dançar, uma galeria de arte, um jardim. E é uma maravilha. Há vinte e quatro anos que ali vivem. E, do que se vê, vivem felizes, em absoluta liberdade. Isto passa-se no Canadá mas podia passar-se em qualquer outro lugar do mundo porque vivem isolados, entregues a si próprios.



Em liberdade numa ilha só deles



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A quem chegou agora aqui, permito-me aconselhar os dois posts que se seguem por conterem dois vídeos que, pelo menos eu acho, são extraordinários. Já aqui abaixo a história de um homem sem braços que, juntamente com um amigo cego, já plantaram mais de 10.000 árvores.

De lá poderão descer para o outro onde mostro o compositor que imaginou uma sinfonia que desafia a eternidade.

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Os plantadores de árvores


Sei, por mim, o que é imaginar um bosque onde apenas há pedras e mato rasteiro. Sei o que é o prazer de, depois de anos de trabalho e incessante luta, poder caminhar à sombra das árvores que plantei, ouvir o canto dos pássaros que dessas árvores fizeram a sua casa.

Sei o que são os cuidados para que as frágeis arvores recém plantadas vinguem, sei o que é protegê-las dos roedores, dos ventos fortes, dos calores excessivos. Sei. 

Talvez por isso goste de saber de quem, em muito maior escala que eu, consegue concretizar sonhos idênticos. sabe transformar a paisagem, enchendo de verde e frescor a terra árida. Li com ternura a história imaginada do homem que plantava árvores tal como gosto de ler Sebastião Salgado falar da terra seca que herdou e que transformou num paraíso.

Mas uma história como a que hoje partilho convosco nunca tinha ouvido. A amizade de dois homens, um sem braços e outro cego, que, desde há anos, se mantêm unidos para erguer um sonho. Já plantaram mais de dez mil árvores em volta da sua cidade. Desde há dezasseis anos que formam uma equipa. Eu sou as suas mãos, diz um, e ele é os meus olhos. Esta é a história tocante de Jia Haixia e de Jia Wenqi.


A amizade que plantou uma floresta



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E queiram, por favor, continuar a descer para conhecerem outro sonho impossível, o da sinfonia (quase) infinita.

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Estender uma mão para o futuro, procurar o infinito


Salvo raras excepções em que fica uma obra, na melhor das hipóteses o que de nós fica será sempre o pequeno momento, a simplicidade do instante em que alguém sentiu a diferença, a tangência harmoniosa de uma melodia, o breve fulgor de um sorriso, o toque que aconteceu ou que se desejou, a palavra que um dia dissemos ou escrevemos e que se alojou no coração de quem a soube guardar. Ou, então, o que, ao acontecer, não foi compreendido mas que, por milagre, sobreviveu e a que, no futuro, alguém virá a achar que essa coisa transporta o laço intemporal, a graça etérea, a genuína raiz que da terra se liberta.

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Jem Finer e a sua sinfonia para mil anos


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Deejo-vos, meus Caros Leitores, uma bela semana semana a começar já por esta segunda-feira.

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domingo, junho 25, 2017

Indócil, não me permito
sossegar no rumor
nem fugir da minha vida

ignorando o fulgor


Pela primeira vez desde há algumas semanas, Lu resolveu sair de casa. Arranjou-se, pegou em livros, na máquina fotográfica, no portátil, meteu alguns alimentos num saco térmico e foi para o campo.




Voltou a gostar da sensação de conduzir. Na estação de serviço olhou para as primeiras páginas dos jornais. Receava ver alguma coisa. Não, só o expectável. Quase lamentou. Inconscientemente, era como se preferisse que o que acontecesse não fosse de sua responsabilidade.

Quando chegou a sua casa, surpreeendeu-se com a altura dos arbustos junto à vedação. Floridos, as cores quentes do verão, aquele perfume doce e intenso de que tantas vezes sentia saudades.


As árvores, enormes. Tudo parecia ter crescido de uma forma inusitada. Um bosque tal como ela tinha sonhado quando o terreno não passava de uma matagal raso no meio de um terreno pedregoso.

Quando abriu a casa reconheceu aquele cheiro tão característico. A casa parecia guardar todo o ano a memória das noites de lareira. Sorriu como que agradecida. O ambiente mantinha-se familiar apesar do abandono a que ela ultimamente o tinha votado.

Quando saíu à rua pareceu-lhe ver passar, no chão, um pequeno vulto. Foi ver melhor e não viu nada. Talvez uma ilusão de óptica.

Saíu pelo campo, câmara fotográfica, disponibilidade para o encantamento de antes. Aproximava-se, baixava-se, redescobria o prazer de captar as quase invisíveis belezas que a natureza guarda apenas para os olhares mais atentos.


Enquanto ia andando, aspirando o ar limpo e perfumado e sentindo o canto dos pássaros, ia recordando todas as vezes recentes em que lá tinha ficado com ele.

No período em que tinha vivido com o outro, aquele a quem os pais tratavam como um filho e de quem sempre esperaram que viesse a vir um neto, ficavam lá todos os fins de semana e, por vezes, no verão, toda a semana. Mas ele era demasiado boa pessoa para a prender. Dele apenas vinha acalmia, compreensão, ternura, uma vida previsível, e ela queria fogo, desafio, desequilíbrio. Mal se separaram, no dia seguinte, já ela estava a reatar com aquele a quem mentalmente tratava por traste. Não era amor, não era desejo, era sobretudo o gosto pelo risco, por pisar o risco. E, a partir de certa altura, percebe agora, a vontade de o destruir.


As idas ao campo voltaram a ser mais esporádicas. Ele era casado, tinha uma agenda familiar, e ela não gostava de lá estar sozinha. Contudo, ambos tinham deslocações frequentes ao exterior pelo que era normal, para ele, dizer em casa que tinha que ir para fora mas que estaria de regresso um ou dois dias depois. Lu aceitava bem que assim fosse e tinha o cuidado de que ele, na medida do possível, não lesasse o equilíbio familiar. Por vezes, parecia que era maior o cuidado dela pela família dele, do que dele próprio. Ali, na casa de campo dela, ele sentia-se em casa. Dizia-se um homem do campo.
Aliás, dizia-se mais do que isso, dizia-se um agricultor. Mas ela dava desconto pois, mitómano como era -- mitómano ou megalómano, que, entre uma coisa e outra, ela nunca tinha conseguido optar pela classificação mais adequada -- ele achava que tinha alma de tudo, de empresário, de camponês, de nobre, de homem do povo, de marchand de arte, de benemérito, de intelectual, de connaisseur de mulheres, de vinhos e de rosas. Claro que com o dinheiro que tinha possuía herdades onde se fazia vinho, possuía obras de arte para dar e vender, era patrono de cinquenta mil organizações que a companhia ou a fundação a que presidia ajudavam. Mas ele, ele mesmo, era pouco mais do que um narciso contemplando-se no espelho da comunicação social, das redes sociais e, até, no site da empresa e, mesmo, na intranet onde fazia com que se cultivasse um verdadeiro culto de personalidade em torno do extraordinário senhor presidente.
Estar no campo sozinha, ficar lá à noite, era, pois, experiência nova para Lu. Mas estava a agradar-lhe.


Maravilhada pelas pequenas flores do campo, pela natureza em estado quase selvagem, Lu sentia-se sempre mais livre. Fotografava tudo, encantada com a luz, com o efeito de halo luminoso que parecia rodear as flores.

Lembrou-se: ali mesmo, naquele caminho em que ia, ele a olhar para ela, a pedir-lhe que se virasse em contra-luz, queria fotografá-la no meio das flores. Depois, como tantas vezes o fazia, pediu-lhe que se despisse. Fotografou-a assim, nua, banhada pela luz do cair da tarde. Lu, lembra-se de, naquele momento, ter dito: Já não vou poder ter um filho, já é tarde demais. E não me desculpo por isso. Não sei como deixei passar o tempo, não sei que prioridades foram as minhas, não sei como cheguei a este ponto. Ele olhara-a, perplexo: 'A que propósito vem agora isso?'. Ela continuara: Um acabei com ele, outro na prática também. E agora dava tudo para ter um e tenho medo de tentar, é tarde demais. Ele abraçara-a: 'Não penses nisso'.  Com distanciamento, ela respondera: Tens filhos, tu. Não sentes falta de mais. Aliás, pouco ligas aos que tens. Eu não tenho nem vou poder ter. Ele protestara: 'Não digas isso. Claro que ligo. Adoro os meus filhos. Mas esquece. Tens uma vida plena, Lu'. Ela não respondera. Só uma pessoa muito desprovida de muita coisa poderia achar que ela tinha uma vida plena. Tinha uma vida vazia, isso sim. E não mais deixara de ter esse pensamento sempre presente. 

E ia andando, fotografando, olhando a bela e protectora serra ao longe e pensando que, à noite, no computador que felizmente não se tinha partido, ia escrever sobre isso. E ia também contar a discussão terrível que tiveram no escritório na véspera do dia em que ela tinha acordado com um formigueiro nos dedos e vazia, ausente, quase se deixara cair num poço sem fim. Ia contar como tinha descoberto o esquema, como o confrontara com isso, como o ameçara, como negara que sempre tivesse sabido, ia contar como, quando ele insistira que ela sabia, que sabia desde sempre, lhe dera uma bofetada e de tal forma violenta a bofetada que os óculos dele tinham voado, que, quando ele se preparava para lhe devolver a bofetada, ela lhe tinha atirado à cara um monte de papéis, de como o tinha visto, furioso mas meio perdido, sem óculos, o chão pejado de papéis. Ia descrever, com pormenor, a forma habilidosa como, durante anos, as contas foram falseadas.

E, enquanto ia pensando em tudo isto, Lu ia caminhando, fotografando. As flores, os frutos.


Ao regressar a casa, já lusco-fusco, de novo um pequeno vulto branco correndo. Assustou-se. Procurou. Não viu nada. Quando estava quase a entrar em casa, a mesma sensação, de novo um pequeno vulto correndo, sem deixar marcas. 


Ficou parada junto à porta a olhar. Quase a anoitecer. Os pássaros quase silenciosos. E, de repente, a impressão de estar a ser observada. Olhou em redor. E, então, ao fundo, não um mas dois, dois pequenos vultos brancos. Aproximou-se devagar. Fugiram na direcção da vedação. Foi ver.


Do outro lado, no meio do mato dois gatinhos brancos. Pequeninos. Olhavam-na, ar assustado. Lindos. Ela fez bssschh, bschhsch, gatinhos, gatinhos lindos. E ali ficou a olhar para eles e eles para ela. Certamente filhos da gata branca que, furtivamente, por lá via passar de vez em quando.


Uns bebés tão lindos. Goastava de lhes poder fazer uma festa.

Quando regressou a casa, as lágrimas corriam-lhe pela cara. Talvez emoção por ver que tinham nascido lá, filhos daquela sua amada casa, uns gatinhos tão bonitos. Mas também talvez tristeza pela sua vida tão vazia.

Depois percebeu que tinha acabado de tomar uma decisão e, conhecendo-se bem como julgava conhecer-se, sabia que era uma decisão sem retorno.

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O título do post foi extraído do poema de 'Indócil' de Maria Teresa Horta in 'Poesis'

Excepto obviamente as de Kate Moss, as restantes fotografias foram feitas por mim, este sábado, in heaven.

Amira Willighagen, com a condução de André Rieu, interpreta O Mio Babbino Caro de Puccini

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Este texto, que acabo de escrever, vem na continuação de:

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Num excesso sempre
incontido
de perda e perdição





Estava calor. Apesar das janelas estarem abertas para o ar circular, Lu sentia-se transpirada. Foi tomar um duche. Estava a sair da casa de banho, nua, o cabelo molhado, quando ouviu tocar à campainha e, em simultâneo, bater à porta. Ouviu chamar por ela. Passado um bocado, a chave a rodar na porta. 

De novo ele, outra vez zangado: 'Só podes estar mal da cabeça. Aqui fechada, sem atenderes o telefone, sem responderes a mails, sem abrires a porta. E desististe de ir trabalhar? Não te parece que já chega desta palhaçada? Se não queres voltar a trabalhar, demite-te. Se estás passada, vai ao médico, mete baixa. Isso é um burnout. Trata-se. Agora ficares em casa fechada é que não resove nada. Merda. E nem pensas que me preocupas?'

Lui, serena, nua, de frente para ele: 'Não, não penso que te preocupo. E sabes há quanto tempo não gozo senão umas duas semanas de férias por ano? Faz as contas. Se tudo o que dei à empresa não serve de nada, nem sequer para, por uma vez na vida, poder descansar, então deixa que me farei pagar de outra forma'.

Ele sorriu ao de leve: 'Já estás melhor...'

Lu não ligou à piada. Limitou-se a esclarecer: 'Estou a escrever as minhas memórias, preciso de tempo. E cada vez me sinto mais descansada, mais leve e cada vez me lembro de mais coisas'

Foi como se tivesse sido alvejado. Olhou-a com ar aterrado. Depois deixou-se cair numa cadeira, ombros tombados: 'Merda, Lu. que conversa é essa? Se os gajos cá voltam... Tu estás a arranjar lenha para te queimares. Para nos queimarmos. Merda. Não faças isso. Deita tudo fora'.

Ela saiu da sala sem dizer nada. Pouco depois regressou com um vestido que lhe cobria levemente a nudez. Sentou-se em frente dele: 'Se soubesses como me faz bem relembrar alguns episódios da minha vida. Gosto de escrever. Parece que escrever abre os diques da memória. Não vou deitar nada fora. Quando acabar mostro-te. Afinal és um dos personagens. Acho que vais ver que estou a retratar-te com lisura. Não podia ser de outra forma. Sou fair em qualquer circunstância. Acho que, no fim, até posso ver se a editora da fundação está interessada em publicá-las. 'As memórias de L. O que achas? Será um título suficientemente sugestivo?'.

E, dizendo isto, reclinou-se um pouco no sofá e colocou um pé sobre ele, deixando ver que estava sem roupa interior.

Ele olhou mas não reagiu. Noutra altura teria saltado sobre ela, guloso e impaciente. Limitou-se a dizer 'Ainda vais dar cabo de nós. Para que é isso?'. Ela olhou-o com olhar vazio, indiferente à ansiedade dele, que insistia: 'Responde. Estás a ouvir? Qual a ideia? Posso saber?'

Lu, como se estivesse a fazer um esforço, condescendeu em responder: 'Não tem nada a ver com 'nós'. Existe algum 'nós'? Que eu saiba, não. E tal como não preciso da tua protecção para coisa nenhuma, também acho que deverias ser menos medroso até porque ficas patético assim, a mostrar que tens medo de mim. Ridículo...'


Ele levantou-se, irritado, 'Estás a ser parva. Não tenho medo. Mas acho absurdo que estejas a entregar o ouro ao bandido'.

'Quem está a ser parvo és tu, ó empresariozinho caguinchas. Quem é que te diz que não estou simplesmente a contar uma maravilhosa história de amor?', e ela esboçou um sorriso.

Mas ele não achou graça 'Deixa-te de merdas, Lu. Sou casado, não me trames'

Ela ajeitou o cabelo que, entretanto, secava, rebelde: 'E olha lá, ó cagãozinho, e quem é que te disse que tens lugar na história dos amores da minha vida? Só lá apareces nos momentos de comédia e é na qualidade de emplastro. Ou nos momentos de suspense. O grande empresário, tão incensado, tão galardoado mas, de facto, um parvalhão, um vendido, um corrupto, um assassino.'

Ele olhou-a perplexo. 'Piraste...? Trata-te. Estás maluca. Assassino? Tem cuidado com o que dizes, Lu, tem cuidado, estou a avisar-te. Ouviste?'

'Digo, sim: assassino. Quantas pessoas já morreram por tua causa? O que se suicidou, esqueceste? A dos Jurídicos a quem empurraste para uma aventura suicidária. Lembras-te? E o que morreu em casa da mãe, depois de lhe terem amputado as pernas?... Queres mais...?'

'Não estou a gostar desta conversa. Estás passada. Esse era diabético. Que é que eu tenho a ver com isso? Está calada que não estás a dizer coisa com coisa. Cala-te.'

'Não limpes a tua consciência, presidentezinho. Eu lembro-te. Ele não queria aparar os teus esquemas. Era um homem íntegro. O que fizeste para o afastar... lembras-te? Humilhaste-o, perseguiste-o. Não descansaste enquanto o homem não saíu da companhia. A companhia como tu dizes, enchendo a boca. A empresa cujas contas ele queria manter transparentes e de que tanto se orgulhava.  Saíu pela porta baixa, descartado como um inútil. Não saía de casa. Arranjou uma depressão. A mulher não aguentou. Deixou-o. Ele foi viver para um andar pequeno. Continuou fechado em casa, não queria ver ninguém. Não se mexia, não se tratava. Sim, diabético. Foram as filhas que levaram o médico lá a casa. Tarde de mais. Tiveram que lhe cortar as pernas. Quando saíu do hospital, foi para casa da mãe, uma idosa desfeita por ver o filho, antes um executivo bem sucedido, agora um inútil farrapo. Obeso, inválido. Morreu pouco depois, paragem cardíaca. Toda a gente falava disso. Fazias de conta que não tinhas nada a ver com o assunto. Lembras-te da carta que as filhas escreveram para a empresa? E tu que fizeste?'

Lu parecia calma mas ele estava cada vez mais assustado. 'Esquece. Não vale a pena, estás maluca e eu não estou para ouvir estes disparates. Estás paranóica, como se tudo tivesse a ver com tudo e como se eu fosse a mão que tudo destrói. Esqueces-te da obra social, esqueces-te de todos a quem ajudamos a ter uma vida melhor?'.

Lu reagiu: 'Uma merda. Fazes o que fazes -- e tu, tu mesmo, de facto não fazes a ponta de um corno -- apenas para termos benefícios fiscais, para ficares bem nessas gaitas da responsabilidade social, para receberes prémios chorudos que colocas sabemos bem onde. Guarda as aldrabices para quando dás entrevistas ou para quando tiveres que te defender. Comigo não. Mais do que tua confidente ou amante, sempre fui tua cúmplice. Sei de tudo. Contigo sempre partilhei a responsabilidade, a insensibilidade, a arrogância, a frieza. Não te esqueças disso.'

'É verdade. Portanto, pensa bem. Se me tramares, tramas-te também a ti. E porque haverias de o fazer? Fiz-te algum mal? O que é que aconteceu?'

'Nada. Não aconteceu nada. Simplesmente um dia acordei com formigueiro nos dedos, sem quase saber de mim. Na verdade, percebo agora, foi como se tudo o que andava a viver me estivesse a sugar a existência'.

'Merda, Lu. Apaga o que escreveste. Volta para o trabalho. Preciso de ti. O ambiente está muito mau. Depois das buscas, aquela merda está de cortar à faca. E já falaste com o Manel? Aqueles gajos não brincam em serviço. Tu vê com o Manel.'

'Não vejo nada. Estou sob escuta e tu também. Quando aqui andaram a revistar a casa até podem cá ter deixado microfones. Não sei nem quero saber. Mas é uma questão de tempo'

'Porra, Lu. Sabes lá tu se estamos sob escuta... Sabes lá se arranjam alguma ponta por onde pegar. O que não faz sentido é facilitar. Apaga tudo, apaga as merdas que andas a escrever, anda trabalhar, vamos voltar ao que era'.

Aproximou-se, estendeu os braços, baixou-se na direcção dela. Ela endireitou-se. Depois levantou-se e olhando-o nos olhos disse com indiferença 'Ao que era...? Impossível. Sob todos os pontos de vista. Todos. Apesar de muitos me desejarem, por comodismo servia-me de quem me estava mais à mão. De ti. Eras um objecto fácil. Agora acho que está na altura de não me contentar com amostras, com deturpações. Está na altura de arranjar um homem de verdade'

Irritado, ele dirigiu-se para a porta. Então, viu o computador sobre uma mesinha pequena e, com inusitada violência, deu-lhe um pontapé, atirando tudo ao chão, a mesa, o computador, o copo de sumo. E saíu, atirando violentamente com a porta.

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O título deste post é parte do poema 'Perdição' de Maria Teresa Horta in 'Poesis'

Lorraine Hunt e a Philharmonia Baroque Orchestra interpretam "With Darkness, Deep," da ópera "Theodora" de G. F. Handel 

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sábado, junho 24, 2017

BFF


Tive com a minha cãzinha, uma boxer cor de mel que viveu connosco durante quase treze anos, um dos mais genuínos e imaculados afectos da minha vida. Eu, que antes tinha medo de cães, deixei-me seduzir pela ternura e alegria daquela criaturinha bebé que viria a revelar-se muito inteligente e uma amiga incondicional. 

Se ainda hoje continuo a pouco conseguir falar dela isso deve-se à saudade que sinto e à dor imensa que tive quando se foi. A forma como me olhou quando, quase sem conseguir andar, se virou para trás sem perceber porque não a acompanhava continua a pesar-me. Cobarde, cobarde, incapaz de a acompanhar nos últimos momentos.

Por estas alturas, com o calor, não procurava o meu contacto: estendia-se no chão de madeira ou de pedra. No inverno saltava, a meio da noite, para cima da nossa cama e, entre os dois, sobre a colcha, ali ficava ela. Contudo, no verão ia para debaixo da cama.

Menina linda. Saltava no ar, atirava-se a mim para me beijar quando eu chegava a casa. Em contrapartida, ia, acabrunhada, caída, para a sua cama quando sentia que eu ia sair. Mas se percebia, não sei como, que a levaria comigo, aí já era uma animação, impaciente à minha volta, a lamentar-se pela minha demora, quase me puxando para a porta.

Já o contei: surpreendia-me com o conhecimento de vocabulário dela. Testava-a: traz a bola. E ela lá ia até que, passado um bocado, aparecia com uma bola. Mas se eu lhe pedia: 'vai buscar a bolinha' aí já ela me aparecia com uma bolinha pequenina. Se eu dissesse: vai buscar o brinquedo, passado um bocado aparecia com uma coisa cujo nome eu não sabia e que, por isso, chamava de brinquedo. Se estava ao ar livre podia pedir-lhe um pau e ela andava, andava, até me aparecer com um pau. E se eu lhe perguntava: 'onde é que está o gato?' aí eriçava-se, arqueava o corpo, bufava, rosnava, ladrava furiosamente. A mesma coisa com 'viste o cavalo?'.

Inteligente, sensível, meiga. Mas já se sabe que os cães são assim.

Mas um peixe...?


Hiroyuki Arakawa é um mergulhador profissional.que acompanha a vida subaquática numa zona de especial beleza e riqueza natural, no Japão. Uma vez, aí, ele salvou um peixe que estava ferido e cansado, dando-lhe de comer durante dez dias. A partir daí o peixe não mais o esqueceu. Ha vinte e cinco anos que dura o afecto. O peixe, Yoriko, que parece ter feições quase humanas, deixa-se afagar e beijar e retribui o afecto ao velho mergulhador, acompanhando-o, mostrando-lhe, com essa proximidade e permissão, que sabe bem que ele é o seu grande amigo.


Aliás, estudos da Universidade de Oxford revelam que os peixes reconhecem o rosto humano, mesmo quando o que lhes é mostrado são fotografias. E mesmo se, para os baralhar, as fotografias forem a preto e branco ou até se a forma da cabeça das pessoas for uniformizada, ainda assim eles conseguem distinguir aquelas que conhecem. Espantoso.


Hiroyuki Arakawa e Yoriko, best friends forever




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Até já.

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sexta-feira, junho 23, 2017

Os olhinhos ofuscados do ministro Pedro Marques perante o generoso decote da Ana Lourenço



Também quero aproveitar para dizer outra coisa. Estávamos a jantar e a vermos a RTP 3. Por indolência fomos ficando. Gosto do Ministro Pedro Marques. Gosto desde que foi Secretário de Estado. É um fulano sóbrio. Não atira foguetes, não tenta agradar, fala do que sabe e, se não sabe, diz que não sabe. E, do que sabe, fala com determinação. Gosto. Não há cá rodriguinhos, bolas de efeito, jeitos à esquerda e à direita. E dá ideia que tem os pés assentes na terra, não parece ser fulano para se deixar deslumbrar.


Mas, então, lá estava ele, tentando manter uma linha de rumo racional face a perguntas da Ana Lourenço que o interpelava numa lógica de imediatismo, como se, agora que o fogo foi apagado, já se estivesse em condições de começar a trabalhar. Que ainda não haja levantamento de estragos, que, por conseguinte, muito menos se tenha podido avaliar a forma mais expedita e económica de fazer face a todos os estragos ou se há seguros que cubram parte dos danos ou condições efectivas para se pedir o recurso a fundos, isso, para ela não interessa nada. Para aquela cabecinha (que antes me parecia mais ou menos atilada e que, com o tempo, tenho visto a tender para a desmiolice) seria normal que, não se sabendo ainda nada disso, o Ministro estivesse em condições de responder com números exactos a quanto vai custar ou quando vai estar tudo pronto.

Como é que eu poderia alguma vez ocupar cargos em que tivesse que aturar perguntas assim...? Jamais! (ler em francês de Alcochete, se faz favor). Se numa situação destas, no dia em que fosse nomeada para coordenar a reconstrução de uma coisa com a amplitude de toda a zona ardida nos diabólicos incêndios de Pedrógão e Góis, e sem se saber ainda o exacto âmbito e a real dimensão dos estragos, me aparecesse uma Ana Lourenço a fazer perguntas destas, acho que responderia com ar sério: 

            Com certeza, Ana. Eu digo-lhe. Vai demorar três meses e duas semanas e meia e vai custar quatro milhões, quinhentos e vinte e sete mil duzentos e setenta e seis euros e vinte e três cêntimos. 
A ver se ela percebia a ironia... Na volta, não.
         Para os jornalistas qualquer asneira dita com ar convicto é letra de forma, coisa equivalente ao que antes era atestado em papel azul de vinte e cinco linhas com selo branco e escriturado por notário. E quatro ou quarenta, milhões ou milhares de milhões para os jornalistas é tudo igual ao litro. Vão por mim: ainda pior que cliteracia de alguns australopitecos é a confrangedora iletracia matemática dos jornalistas. Mas, enfim, acho que, quanto a isso, não há nada a fazer. Temos que sofrer em silêncio (ou, então, seguir o avisado conselho da Mãe Preocupada).
Continuando. Na volta, a dita Ana Lourenço (e aqui leia-se Ana Lourenço em sentido lato) achava que eu estava a falar a sério e ainda me perguntava a seguir: E quantas pessoas vão estar envolvidas nessas operações? E eu, na mesma linha, responderia, com convicção: 
Ainda bem que fez essa pergunta, Ana. Vão estar envolvidos catorze engenheiros civis, dois mecânicos, quatro electrotécnicos, dez biógofos, dois astrofísicos, um astronauta, sete arquitectos, duzentos e trinta e sete pedreiros, treze electricistas, doze canalizadores, a equipa do Querido, Mudei a Casa, cinco silvicultores, dois deputados do PSD Ribatejo, trinta e três motoristas, vinte e nove agricultores, a ex-ministra Cristas, cinco jardineiros, dois fotógrafos, rédeas curtas para dez meios jornalistas, milho para meia dúzia de galinhas sem cabeça (bem, talvez essas não precisem de milho), uma gaiola para cinco papagaios e uma jaula para seis abutres.
Enfim.

Mas adiante que não era sobre isto que eu ia falar.

A cena é que a Ana Lourenço -- que hoje não se apresentava com o habitual cabelo em asa de corvo mas, sim, numa rutilante cor de cobre -- estava com um generoso decote que deixava antever parte dos seios. Acresce que dá ideia que os pousava sobre a bancada, empolando os volumes que se acomodavam dos lados do vale que se formava entre eles. 


Em frente, o pobre ministro tentava manter o olhar acima da linha de água para que ele (ele, olhar) não se afundasse na regueira por onde talvez escorresse a putativa transpiração entre-seios da Ana Lourenço.

Contudo, o pobre, de vez em quando, quando ela falava e ele se via forçado a encará-la, fechava os olhinhos, tentando não ver o que ela tinha bem à vista. Olhinhos semi-cerrados. Franzidinho, franzidinho... Ou isso ou é míope e estava, o maroto, a focar a visão para melhor alcançar as poitrines da Lady in Red Hair.

E estava eu a pensar isto -- mas em silêncio, que eu os pensamentos íntimos gosto de os guardar só para mim -- e diz o meu marido: 'Não deve ser fácil um gajo manter-se concentrado... a Ana Lourenço hoje está com as mamas quase de fora'. 


Exagero dele, claro. Não estavam quase de fora coisa nenhuma, estavam apenas sofialorianamente bem insinuantes, digamos assim.

Esta dele (dele, meu marido) até me fez lembrar uma do marido de uma colega. Conta ela que ele, quando ela sai de casa mais decotada, lhe alarga o decote com um dedo, espreita bem de perto e lhe pergunta: 'Olha lá, achas que vais bem assim, as mamas todas à mostra?'. Conta ainda ela que, calmamente, o elucida: 'Olha lá tu. E tu achas que os meus colegas costumam meter o dedo no meu decote e espreitar lá para dentro?'

E sai de casa assim mesmo, orgulhosa nos seus bem fornecidos seios.

E faz ela muito bem. Desde pequena que ouço dizer que o que é bom é para se ver. Ora essa.

Enfim. 

Isto só para dizer que, por todas as supra aduzidas razões, aquele pobre ministro Pedro Marques deve ter suado as estopinhas para sair lúcido daquela entrevista com a Ana Lourenço.


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NB: Caso este converseio não seja bem a vossa praia e prefiram prosa mais literária, desçam, por favor, para ouvirem um escritor guapissimo com voz arraçada de Pipi a falar da Madame Bovary.

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[Não sei se ainda vou dedicar-me ao meu folhetim ou se vou mas é pregar para outra freguesia. Já vejo]

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Porque é que gosto de ver o Karl Ove Knausgård a falar da 'Madame Bovary'


Muito bem. Para começar um disclaimer: nunca li nenhum dos livros do Karl Ove Knausgård. Já ofereci, porque ouvi dizer que são bons, mas nunca me aventurei. Grandalhões de mais, ainda desloco um pulso, sei lá. Ou então é porque ainda não me despertaram atenção suficiente. Não faço ideia.


Mas acho que o fulano tem pinta. Já li uma entrevista e achei que tem carisma. Ou, se não é carisma, é qualquer coisa nessa base.

Agora estive a ver este pequeno vídeo e achei graça. Primeiro, ele de facto tem pinta. Ao princípio parece que está ali desorientado com uma farripa de cabelo, dá vontade de lhe sugerir que corte o cabelo à escovinha ou que use bandelete. Depois lá se organiza.  Tem pinta. A seguir gosto da forma como está vestido. Não é qualquer um que aguenta uma roupa assim, tudo em escuro, mas ele, com aquele belo cabelo grisalho, com aquela barba e aqueles olhos valoriza qualquer toilette. Mais: não percebo nada do que ele fala mas gosto de o ouvir. Faz-me lembrar a Pipi das Meias Altas. Está bem que ele é norueguês e a Pipi era sueca mas para um mau ouvido a coisa soa parecida.

Depois, gosto do lugar onde ele está a falar, ao ar livre, rodeado de verde.

Finalmente, como, no século passado, gostei de ler a Bovary, gostei agora de ouvir a opinião dele.

E pronto, é mesmo só isto que tenho a dizer sobre a entrevista. 

(A fraca erudição não me dá para muito mais -- e quem dá o que tem a mais não é obrigado).



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quinta-feira, junho 22, 2017

Outros tempos.
Sem pena, sem arrependimento


Depois de um dia de ausência -- de novo uma ausência -- Lu saíu da abulia e voltou a si, à sua rotina. Durante todo o dia escrevia memórias, tentando localizá-las no tempo. Aos poucos, ia conseguindo cartografar a sua existência que dias antes lhe parecia vazia.

Agora, a rotina estava mais consolidada. Escrevia até estar exausta, os músculos doridos, a nuca em fogo.




De manhã, quando chegava à sala, relia o que tinha escrito na véspera. Espantava-se com o que ali encontrava. Era a sua vida, disso não tinha dúvidas, mas era como se se tivesse passado num tempo que não era o seu ou como se apenas tivesse sido espectadora do que se tinha passado.

Naquele dia, tinha acordado a pensar num episódio que, na altura, a tinha divertido. 

Tinham combinado que uma certa pessoa não era 'grande espingarda' e que, portanto, deveria saltar. Falavam assim: 'aquele não é grande espingarda, tem que saltar'. Há já algum tempo que ele a mantinha ao corrente do que fazia para que fosse o outro a querer sair de livre vontade: atribuía-lhe objectivos irrealizáveis, não lhe dava as condições mínimas para que ele conseguisse fazer alguma coisa, 'apertava' com ele dia e noite, em privado e em público. Ela lembra-se agora bem de como um dia, numa reunião com a grande mesa orlada de gente, ele ter interpelado o outro, perguntando-lhe como estava um determinado assunto. O outro queria explicar as dificuldades mas ele não o deixava. O outro era sucessivamente interrompido 'não quero desculpas, quero resultados', dizia ele com voz melíflua, sem levantar a voz mas deixando aperceber uma violência em crescendo. Ninguém ousava interromper aquela tortura. 'Não conseguiu fazer nada do que se pretendia. Avanços: zero. Certo?' e, quando o outro, uma vez mais, queria invocar a impossibilidade da missão, ele a interromper, voz seca, 'Sim ou não?'. O outro, quase sem voz: 'Não' e ele 'Ok, era o que eu queria ouvir', logo mudando de assunto, deixando o pobre homem humilhado, isolado naquela mesa cheia de cobardes. Lembra-se de assistir a isso sem emoção, sem compaixão, quase achando graça à crucificação do outro.

Dias depois, ele disse-lhe 'vamos ali falar com o gajo, vamos arrumar o assunto'. Ela não percebeu: 'E que tenho eu a ver com o assunto?'. 'Tens, vais ficar com a incumbência de o despachar e arranjar alguém para o lugar dele'. Aceitou sem protestar. Tudo aquilo lhe parecia normal. Era assim que as coisas se passavam. 

Na sala, grande e propositadamente desconfortável, uma mesa em U, aberta ao meio, ele e ela de um lado, o outro. longe, em frente. De novo um interrogatório feroz, de novo o outro a derrapar, a fraquejar e ele, sem dó, a apertar. De vez em quando, ele virava-se para ela, pedia-lhe opinião e ela, cínica, tão cínica, improvisava ali uma solução qualquer. Reparava que o outro abanava a cabeça, achando que o que ela dizia não fazia sentido mas ela respondia: 'Está a abanar a cabeça? Não concorda? Mas tem alternativas? Se tem, porque não as pôs ainda em prática?' E o homem, infeliz, a acabar por fazer aquilo que se esperava dele: 'Desisto. Estou a dar cabo da minha saúde. Não aguento mais isto. Demitam-me.' e ele, frio, 'Nós demiti-lo... ? Não senhor. Nós contamos consigo, ora essa'. E então, finalmente, a rendição total: 'Então, demito-me eu. Não aguento mais isto'.

E ele, frio, 'Muito bem, se sente que a saúde não está bem, não quero ficar com esse peso na consciência. É escrever uma carta e entregá-la à doutora, ela encarregar-se-á de tratar das coisas o melhor possível. A companhia tem esta tradição, tratar com humanidade todos os seus'.

E, quando o pobre coitado, arrumava os papéis, derrotado, amedrontado, ele encostou-se mais a ela e disse em voz baixa 'Nisto só vejo um problema' e ela, já solidária na preocupação: 'Sim... qual...?' Ele, voz sussurrada: 'É a mesa ser aberta, vê-se tudo. É que essas pernas estão um apetite'. Lembra-se de como teve que disfarçar, cheia de vontade de rir.

Mas, logo que o outro saíu, desforrou-se: provocou-o, vingou-se da maldade dele mas toda ela era malícia -- e queria lá ela lá saber da maldade dele ou do triste destino que esperava o outro pobre, era mais um assunto resolvido e o resto era conversa -- naquela altura já só queria era divertir-se. E, então, depois de muito o tentar, deixou que, ali mesmo, ele provasse o fruto proibido.

Enquanto escreve, e escreve com distanciamento, olha a mesa em frente e pousa o olhar no belo objecto de vidro que, um dia, ele lhe ofereceu. 


Foi outro daqueles dias. Fazia anos. Tinha querido ter um dia de férias, ir à praia, ao cinema, descansar. Na véspera, à noite, um telefonema dele. Era a atribuição de bolsas de mérito a jovens que se tinham candidatado. Apresentavam um projecto, havia uma comissão que fazia uma selecção e uma validação técnica, depois um júri que analisava as candidaturas seleccionadas e, então, havia uma sessão solene, com convidados e, no fim, era atribuído um prémio especial. Pelo meio havia música, projecção de filmes. Ela deveria estar presente, claro, mas, com antecedência, fizera saber que não ia poder ir. Pois de véspera, à noite, uma vez mais ele dizia que não podia ir, um compromisso de última hora, ela que o representasse. Ela que não. Não lhe disse que fazia anos, disse apenas que precisava de descansar, que tinha planos, que há que séculos ele estava avisado. Mas ele não sabia receber um não como resposta e ela não tinha paciência para o contrariar.


Foi. Contrafeita. Quando ao fim do dia chegou a casa, aborrecida, estava ele à porta do prédio, presente na mão. Foram a beijar-se no elevador preparando-se para festejar o aniversário. De vez em quando ele conseguia surpreendê-la: teria jurado que ele não se lembraria que fazia anos e, afinal, tinha aparecido com aquela peça tão bonita, a mesma que uma vez ela tinha desejado, num dia de verão, quando tinham ido à procura das obras do Pde Manuel Antunes. E ali estava ele, terno como um namorado, beijando-a, olhando-a nos olhos, pondo-lhe um chapéu sobre os cabelos despenteados, pedindo-lhe que se despisse para ele, que desabotoasse a camisa, devagar. E ela fazendo o que ele pedia mas não para prazer dele mas para seu próprio prazer. Gostava de ver o efeito que o seu desejo provocava nele.


Depois, mais tarde, corpo com corpo, ele foi o de sempre, convicto e falando indecências. E, só pela forma desprendida e obscena dele se entregar ao sexo, ela lhe desculpava tudo o resto.
O que também não era bem verdade pois, para ser completamente sincera, não lhe atribuía culpas nenhumas, de nada, já que ela, compactuando com ele, na prática era igual.
Depois, já tarde, nessa noite, ele sentou-a, nua, ao seu colo e puxando-lhe o cabelo para um lado, disse-lhe: 'Escuta. Fixa este nome: MyGodess. Era para ser para mim mas houve uma troca de mãos. Fica para ti. Tens lá um presente. Considera que é um bónus. Vou deixar aqui os dados.'. Ela olhou, sem grande interesse. ouviu palavras como 'o pêlo do cão', 'offshore', 'tudo certinho, limpinho'. Mexeu nos papéis. Viu um número com alguns zeros. Não estranhou. Era esse o mundo em que também se movimentavam.


Era já de madrugada quando ele se levantou, 'Tenho que ir. Reuniões de partir pedra, estas, as horas passam e não se chega a lado nenhum. Sorte tem a minha mulher que é artista, não tem que aturar estes gajos, chatos, que só estão bem a pôr areia na engrenagem. Estou farto de lhe dizer isso, a sorte que tens, sabes lá a seca que são estas reuniões que vão pela noite dentro'. Ela olhou-o de lado, divertida. Não que o achasse um bom malandro, talvez antes um belo sacana. Mas até por isso lhe achava graça.

E, escrevendo tudo isto, parecia-lhe que tudo se tinha passado há muito tempo. E, no entanto, pensando bem, não fora assim há tanto. E não sentia pena nem arrependimento pois parecia que as recordações eram de outra que não ela.

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Este texto que acabo de escrever vem na continuação daquele outro que escrevi quando me sentia mergulhada em tristeza: Numa noite sem palavras.

E continua em: Num excesso sempre incontido de perda e perdição

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E, não que tenha a ver com o que acima se escreveu mas porque sou dada à cultura geral e específica e gosto de partilhar o que julgo saber, queiram, por favor, saber as últimas sobre o clítoris -- para ver se acabamos de vez com a cliteracia

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